Entre as medidas anunciadas pelo governo federal na semana passada dentro do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, a que mais chama a atenção do mercado é a cooperação tecnológica com a China: R$ 1,276 bilhão ao longo de cinco anos para desenvolver modelos de linguagem de grande porte (LLMs) em português, com Huawei e iFlytek como parceiras.
A execução ficará com a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), no Rio de Janeiro. O cronograma prevê início de operação em julho de 2027 e a capacitação de 3 mil brasileiros ao longo do programa. É a primeira vez que o governo coloca recursos dessa ordem no treinamento de modelos de fundação — e não apenas em infraestrutura de processamento.
Por que um modelo em português
Os grandes modelos disponíveis hoje são treinados majoritariamente em inglês, com o português como língua secundária. Para o setor público, isso significa desempenho pior em tarefas como leitura de processos, atendimento ao cidadão e análise de legislação. O Serpro, que já anunciou um LLM soberano para o segundo semestre de 2026, aposta na mesma tese: dados sensíveis do Estado não deveriam circular por modelos hospedados fora do país.
O timing geopolítico
O acordo é assinado no momento em que Brasília negocia com Washington a retirada das tarifas de 25% impostas pelos Estados Unidos em julho — uma reunião entre o ministro Márcio Elias Rosa e o representante comercial americano Jamieson Greer está marcada para segunda-feira (31). Entre as justificativas listadas pelo governo Trump para o tarifaço estão temas como propriedade intelectual e o Pix. A escolha de parceiros chineses para a camada mais estratégica da IA nacional tende a entrar nessa conversa.
A pergunta não é se o Brasil vai ter um modelo em português. É quem vai controlar os pesos, os dados de treino e a infraestrutura onde ele roda.
O que observar
Três pontos definirão se o programa entrega o que promete: a governança dos dados de treinamento (quais bases públicas serão usadas e sob que regras), a propriedade intelectual dos modelos resultantes (se os pesos serão abertos, como no caso do RISC-V, ou fechados) e a integração com o supercomputador de 7.200 petaflops anunciado para o Rio Grande do Norte, cuja operação está prevista para o fim de 2027 — cinco meses depois do início do programa com a China.



