A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, afirmou nesta segunda-feira (12), em sua primeira aparição na reunião anual do FMI e do Banco Mundial, em Bangcoc, que o avanço da inteligência artificial representa um tsunami em câmera lenta sobre o mercado de trabalho e ameaça esvaziar a arrecadação de impostos dos governos, segundo a Folha. A novidade em relação a alertas anteriores da entidade sobre o risco de 40% dos empregos globais serem afetados pela tecnologia está no argumento fiscal: ao deslocar renda do trabalho para o capital, a inteligência artificial reduz a base sobre a qual os países cobram impostos hoje.
O mecanismo que ameaça a receita dos governos
A tributação da maior parte dos países ainda depende, em boa parte, da renda gerada pelo trabalho assalariado. Quando sistemas de inteligência artificial substituem tarefas rotineiras e repetitivas, a atividade econômica se concentra em empresas e proprietários de capital, e a arrecadação que viria da folha de pagamento encolhe. Georgieva disse que esse desalinhamento fiscal já aparece em economias avançadas, antes mesmo de qualquer mudança nas regras tributárias desses países.
A diretora do FMI reconheceu que ainda não é possível prever com exatidão como será o mercado de trabalho dentro de cinco anos, mas disse que os governos podem agir agora, com disciplina, avaliando o que já está em curso, em vez de esperar por certezas sobre o futuro.
Quem perde a vaga de entrada
Georgieva disse que postos de entrada, historicamente o primeiro passo de uma carreira, estão desaparecendo à medida que a automação absorve tarefas repetitivas. Ao mesmo tempo, crescem vagas de baixa remuneração em setores como a construção civil, um movimento que a diretora do FMI descreveu como algo que não há motivo para comemorar.
Dados citados na reunião em Bangcoc, de Singapura, mostram a extensão do problema: apenas 74% dos formados em 2025 conseguiram emprego em tempo integral, contra 88% da turma de 2022, enquanto o desemprego entre recém-formados subiu de menos de 4% para cerca de 10% no mesmo período. Um estudo da Universidade Harvard, também citado no encontro, registrou queda de cerca de 9% na contratação de profissionais juniores em empresas que adotaram IA generativa.
Georgieva disse ainda que a inteligência artificial pode adicionar entre meio ponto percentual e 1 ponto percentual ao crescimento das economias avançadas da Ásia, compensando parte da desaceleração ligada ao envelhecimento da população da região. Mas a diretora do FMI fez a ressalva de que esse ganho de produtividade não resolve, por si só, o problema da arrecadação, porque o crescimento tende a se concentrar em um número pequeno de empresas de tecnologia, sem gerar os mesmos impostos que o trabalho assalariado produzia.
Quem paga a conta se a arrecadação cair
A preocupação de Georgieva integra a própria agenda da reunião anual do FMI e do Banco Mundial em Bangcoc, que segue até domingo (18) e reservou um painel específico para discutir a tributação na era da inteligência artificial. Para a diretora do FMI, a resposta dos governos precisa incluir a reformulação da educação e das redes de proteção social, hoje financiadas majoritariamente por impostos sobre salários.
O alerta toca de perto países como o Brasil, cuja arrecadação ainda depende fortemente de tributos sobre a folha de pagamento e o consumo. Se a migração de renda do trabalho para o capital avançar na escala descrita pelo FMI, governos com essa estrutura tributária terão menos recursos justamente no momento em que precisariam investir mais em requalificação profissional.
Fontes consultadas
- Folha Tec — Chefe do FMI se diz alarmada com o tsunami em câmera lenta da IA sobre empregos e impostos
- The Irish Times — IMF chief alarmed at 'slow-moving tsunami' of AI for jobs, taxes
- InvestingLive — IMF's Georgieva calls AI a slow-moving tsunami again for jobs as graduates feel the first hit
- IndexBox — IMF chief warns AI is a slow-moving tsunami threatening jobs and tax revenues


