A Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) defendeu nesta terça-feira (27), no ABES Summit 2026, em São Paulo, uma estratégia nacional para a inteligência artificial com foco em infraestrutura. Segundo a Convergência Digital, o evento foi realizado em parceria com a Fiesp, e o potencial citado é de até R$ 1 trilhão adicionados ao PIB brasileiro até 2030.
O presidente da ABES, Andriei Gutierrez, disse que a IA precisa deixar de ser tratada como iniciativa isolada da área de tecnologia. Para ele, a transformação digital deve ser prioridade dos próximos governos, com políticas de longo prazo, governança e investimento em infraestrutura. "É uma tecnologia revolucionária que precisa estar lá, na estratégia, na revisão do negócio", afirmou.
A estimativa de R$ 1 trilhão foi apresentada por Tania Cosentino, ex-presidente da Schneider Electric e da Microsoft no Brasil, hoje conselheira da Câmara de Comércio Internacional (ICC) e conselheira independente da WEG. O texto da Convergência Digital não identifica o estudo que dá base ao número, o que limita a verificação do cálculo.
Data centers: 1% do mundo, R$ 100 bilhões em São Paulo
A infraestrutura aparece no centro da cobrança. De acordo com os dados apresentados no evento, o Brasil concentra cerca de 1% dos data centers do mundo, e São Paulo reúne aproximadamente R$ 100 bilhões em investimentos no setor. A expansão da capacidade nacional poderia movimentar R$ 90 bilhões adicionais até 2030 e gerar mais de 55 mil empregos diretos e indiretos.
O vice-governador de São Paulo, Felicio Ramuth, disse que estará à frente dos projetos de tecnologia e inovação do governo estadual nos próximos quatro anos. Ele defendeu avanços na regulamentação do REDATA, alertou para os efeitos da reforma tributária sobre software e serviços e pediu uma regulação de IA que não comprometa a inovação nem a competitividade.
Tania Cosentino defendeu que a estratégia nacional integre infraestrutura, energia, desenvolvimento industrial, educação e pesquisa, além da formação de lideranças e profissionais.
Das empresas que testam às que ganham dinheiro
Na parte corporativa, Tania citou pesquisa do Boston Consulting Group (BCG) segundo a qual o percentual de organizações que capturam valor com IA em escala subiu de 5% para 50% em cerca de um ano. "Entre fazer piloto e desbloquear valor, existe um abismo", afirmou, ao alertar para empresas que não conseguem transformar projetos experimentais em resultado.
Os dados sobre agentes autônomos apontam outro descompasso. Segundo o levantamento citado por ela, 42% das empresas avançam na adoção desses agentes até 2030, mas só 5% têm controles adequados para operá-los com segurança. "Estou vendo muita gente querendo gastar em IA e não querendo gastar em cyber", disse. "O risco quem assume é você, não é o algoritmo."
O que fica para o próximo governo
A agenda de Gutierrez e Ramuth chega a três dias do fim da campanha e a menos de dois meses do início de um novo ciclo de governo. Para as empresas de software, a pauta imediata é a regulamentação do REDATA, que trata da infraestrutura de data centers, e o desenho da regulação de IA, que ainda precisa equilibrar proteção e competitividade.
Na prática, o R$ 1 trilhão depende de energia, capacidade instalada e mão de obra qualificada, itens que a ABES quer ver tratados como política de Estado. Para o gestor de uma empresa, o dado de controles pesa mais perto: com 5% das companhias preparadas para operar agentes autônomos, a conta de segurança digital entra no orçamento de IA, e não depois dele.



