O investimento em inteligência artificial deve ultrapassar US$ 650 bilhões em 2026 e é isso que mantém a economia mundial de pé, afirmou o economista Alexandre Drabowicz, diretor de investimentos (CIO) do Indosuez Wealth Management, em entrevista publicada pelo NeoFeed nesta quinta-feira (29). O Indosuez é o braço de private banking do Crédit Agricole e administra € 135 bilhões.
Segundo Drabowicz, o mercado começou o ano esperando desaceleração por causa da crise do petróleo e do bloqueio no Estreito de Ormuz, sobretudo nos Estados Unidos. A contração não veio. Ele descreve a economia global como resiliente, num ponto "não muito quente, não muito frio", e diz que os efeitos dos choques tarifários ficaram para trás.
Quem recebe o dinheiro da IA
De acordo com o economista, os maiores beneficiados diretos são China, Coreia do Sul e Taiwan, países que concentram os principais fabricantes de semicondutores. Na Ásia, ele cita Taiwan, Coreia do Sul, China e Singapura negociando a cerca de 10 vezes os lucros, quase 50% abaixo do valuation americano, com crescimento de lucros de aproximadamente 30% neste ano.
Drabowicz usou a Anthropic como exemplo. Segundo ele, a empresa é lucrativa, tem margens de 75% e deve chegar a cerca de US$ 100 bilhões em vendas, contra US$ 10 bilhões há um ano. Ele afirmou que a companhia deve abrir capital em novembro. Os números são da avaliação do entrevistado, não de balanço divulgado.
A dívida das big techs e o risco de inflação
O financiamento dessa corrida passa pelo mercado de dívida. Drabowicz estima que as big techs emitam cerca de US$ 250 bilhões em títulos em 2026 e perto de US$ 1 trilhão nos próximos quatro anos. Ele admite que o volume poderia pressionar a inflação.
Sobre uma possível bolha, o economista a descarta para a tecnologia e vê risco apenas no valuation de algumas empresas. Ele compara com as pontocom: houve bolha nas companhias, não na tecnologia. Também diz que o retorno dos investimentos virá mais rápido do que o mercado prevê.
Para os Estados Unidos, ele projeta apenas um corte de juros do Fed, em novembro, e inflação próxima de 2,5% em 2027. Cita ainda um paradoxo: a confiança do consumidor está baixa, mas o gasto continua alto. No petróleo, afirma que cerca de 80% do fluxo bloqueado em Ormuz já foi normalizado, com desvios por oleodutos da Arábia Saudita para o Mar Vermelho e dos Emirados para Omã e Fujairah.
O que sobra para o Brasil
O Brasil aparece na entrevista por dois caminhos. O primeiro é o yuan: Drabowicz diz que cerca de 40% do comércio bilateral entre Brasil e China já ocorre na moeda chinesa, parte da estratégia de Pequim de internacionalizar a divisa como alternativa ao dólar. O segundo são as commodities. Ele cita Brasil, Peru, Chile, Argentina e Guiana pelo papel em petróleo e minerais críticos.
Para 2027 e 2028, a recomendação do Indosuez é manter-se investido e ignorar manchetes alarmistas, com foco em "autonomia estratégica", que reúne IA, defesa, energia e infraestrutura. Cobre e terras raras entram como insumos indispensáveis para data centers e defesa, o que favorece exportadores de minério, como o Brasil. A leitura é de um gestor de private banking, e a trajetória do investimento em IA e dos juros americanos é que vai dizer se ela se confirma.



