A gestora de fundos Valora, que tem R$ 36 bilhões sob gestão, usa inteligência artificial para analisar até dez anos de histórico de fundos de direitos creditórios (FIDCs), período bem maior que os 18 a 24 meses considerados pelo mercado na análise desse tipo de produto. A informação é do CEO e fundador da casa, Daniel Pegorini, em entrevista à analista de fundos da XP, Clara Sodré, publicada pelo InfoMoney neste sábado (24).
A Valora opera há 20 anos e fez os primeiros investimentos em FIDCs entre 2008 e 2009, nos primeiros anos desse mercado no Brasil. Ao longo desse período, a gestora formou um banco de dados próprio que hoje alimenta os modelos de inteligência artificial usados para monitorar as carteiras.
Como a IA cruza dez anos de histórico
O sistema da Valora acompanha mais de 50 índices em mais de 150 FIDCs, segundo Pegorini. A ferramenta cruza essas séries para identificar desvios no comportamento dos fundos antes que eles apareçam nos relatórios tradicionais enviados aos cotistas.
Entre os dados monitorados estão a inadimplência registrada nos FIDCs, o comportamento de debêntures nos últimos 180 dias e informações de compliance sobre as empresas que recebem os recursos investidos. Pegorini disse que o acesso a uma década de séries históricas, e não apenas aos últimos meses, permite à equipe comparar o momento atual de um fundo com ciclos de crédito anteriores.
Dos dois dias para 15 minutos na produção de relatórios
A automação já mudou a rotina interna da gestora. A produção das lâminas de fundos, documento que resume a carteira para o investidor, caiu de dois dias para 15 minutos, segundo a Valora.
A gestora mantém equipes de dois a três profissionais de dados e programação em cada uma de cinco áreas internas, que usam os modelos de inteligência artificial no dia a dia da análise de crédito. O resultado apareceu na premiação Outliers 2026, em que a Valora ficou em 1º lugar na categoria FI-Agro e em 2º lugar em FII Papel. A cerimônia está marcada para 28 de janeiro de 2027, no Teatro B32, em São Paulo.
O risco que a tecnologia tenta antecipar
O mercado de FIDCs lida com a securitização de recebíveis de empresas e costuma reagir rápido a mudanças na inadimplência. Antecipar um desvio de comportamento em meses, antes que o problema afete o pagamento aos cotistas, determina se a gestora consegue reduzir a exposição a tempo ou se o investidor arca com a perda.
Para uma gestora que administra R$ 36 bilhões em nome de terceiros, a diferença entre um sistema que olha para os últimos dois anos e outro que lê uma década de dados aparece primeiro na carteira de crédito privado, onde qualquer atraso na resposta pesa direto no retorno entregue ao investidor.


