A Anthropic afirmou em relatório publicado em 12 de outubro que modelos de inteligência artificial pequenos podem estar a meses de conseguir se copiar sozinhos em aparelhos comuns da internet das coisas, como fornos inteligentes e TV boxes Android de marcas genéricas. O estudo é da equipe Frontier Red Team, assinado por William Zhou e Daniel Freeman, e foi repercutido nesta segunda-feira (2) pelo Olhar Digital.
A tese central é que esse tipo de programa não dependeria de um centro de processamento de dados. Segundo a empresa, um replicador assim seria difícil de desligar porque não há um ponto central a cortar, embora possa ser lento, com tempo de duplicação de dias.
O que os testes mostraram
Em um dos experimentos, um modelo de 9 bilhões de parâmetros conseguiu rodar em 8 dos 9 tipos de hardware avaliados. A Anthropic também afirma que modelos de até 30 bilhões de parâmetros já executam várias das etapas individuais da replicação, mas erram ao encadeá-las do início ao fim.
Na avaliação de propagação, os pesquisadores montaram uma rede isolada de 8 nós com emuladores de Android 15 e acesso sem autenticação. Entre os modelos de pesos abertos testados, só o GLM-5.2 completou a cadeia inteira de forma confiável: chegou aos 8 nós em 4 de 5 tentativas e a 7 nós na outra. O Olhar Digital descreve o teste como simulação de oito dispositivos Android.
A empresa ressalva que a etapa de exploração da falha foi simplificada. Por isso, afirma que o resultado funciona como limite superior do que seria possível no mundo real, e não como previsão de sucesso fora do laboratório.
Lento, mas difícil de conter
O relatório também mediu a velocidade. Um modelo de 26 bilhões de parâmetros distribuído por 15 TV boxes de cerca de US$ 55 cada gerou 0,39 token por segundo na demonstração. Para efeito de comparação, a Anthropic estima que uma botnet do tamanho da Kimwolf, que infectou mais de 2 milhões de aparelhos, teria cerca de 133 mil cópias e capacidade de inferência equivalente a, no máximo, 40 placas H100.
Os autores descrevem o resultado como um possível mofo limoso digital, que cresce devagar em máquinas pouco protegidas. Segundo a Anthropic, a tendência histórica de melhora dos modelos pequenos os levaria ao nível do GLM-5.2 até o fim de 2026. A empresa diz que ainda não existe um replicador autônomo completo.
O que reduz o risco
Entre as medidas citadas no estudo está a notificação e a quarentena de aparelhos infectados. Em dados sobre a botnet Mirai, essa abordagem limpou 92% das infecções em 14 dias, contra 74% sem aviso aos usuários. O relatório também menciona que senhas padrão de fábrica já são ilegais em mercados do Reino Unido.
Para empresas e consumidores brasileiros, o ponto prático é a higiene dos aparelhos conectados: trocar senhas de fábrica, desativar acesso remoto sem autenticação e aplicar atualizações. O relatório trata a segurança desses dispositivos como a principal barreira, já que o fabricante de baixo custo dificilmente corrige falhas depois da venda.



