segunda-feira, 2 de novembro de 2026 · Edição diária

Inteligência artificial · Política · Poder econômico

Keyu Jin diz que corrida da IA entre EUA e China está aberta e indica o que o Brasil pode copiar

Para a economista, os EUA lideram a ciência de ponta e a China produz IA mais barata, mas a disputa por aplicar a tecnologia na economia real ainda não tem dono. Ela vem a São Paulo em 4 e 5 de novembro.

Ilustração de chip de inteligência artificial com as bandeiras dos Estados Unidos e da China
A economista Keyu Jin, professora de Finanças em Hong Kong, concedeu entrevista ao NeoFeed a partir de Londres. Foto: Xuthoria / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A economista chinesa Keyu Jin afirmou ao NeoFeed, em entrevista publicada nesta segunda-feira (2), que a disputa entre Estados Unidos e China pela liderança em inteligência artificial ainda não tem vencedor. Segundo ela, três corridas estão em andamento, e apenas duas têm favorito.

Jin, de 43 anos, é autora de "A nova China: para além do socialismo e do capitalismo", lançado em 2023 no Brasil pela Edipro. Trabalhou no Banco Mundial, deu aulas por 15 anos na London School of Economics e hoje leciona Finanças na Hong Kong University of Science and Technology. Ela vem a São Paulo para o HSM+ 2026, nos dias 4 e 5 de novembro.

Três corridas, dois líderes e uma disputa aberta

Na primeira, a da ciência de fronteira, os Estados Unidos lideram, de acordo com Jin, por causa de universidades e laboratórios que produzem pesquisa de ponta. Na segunda, a da eficiência, a economista afirma que a China está à frente: produz IA mais barata, mais rápida e em escala. A capacidade industrial chinesa dá vantagem à IA embarcada em produtos físicos, como robôs e carros elétricos.

A terceira corrida é a da implantação, ou seja, quem conseguirá aplicar a tecnologia em larga escala na economia real. Para Jin, ela segue em aberto. A economista vê as duas abordagens como complementares e considera discutível que um dos lados saia vencedor.

Sobre as tarifas e restrições da era Trump, Jin disse que elas aceleraram a transição chinesa para setores de alta tecnologia. Com o acesso a tecnologias críticas bloqueado, o país teve de desenvolvê-las por conta própria. Segundo ela, o episódio saiu caro para a China, para o mundo e para as empresas americanas, e parte do comércio foi redirecionada para países como Brasil, Vietnã e México.

Planejamento de longo prazo e uma economia descentralizada

Jin rejeita a ideia de que a economia chinesa seja comandada por um único centro. A centralização política existe, diz, mas a economia é uma das mais descentralizadas do mundo. Ela chama de "economia dos prefeitos" o sistema em que o governo central define diretrizes, e cidades e distritos ficam responsáveis por gerar receita, atrair empresas e, em número crescente, produzir companhias de tecnologia.

Jin afirmou: "O aspecto mais importante a ser aprendido com a China é o benefício do planejamento estratégico de longo prazo, que transcende os ciclos eleitorais e foca no futuro da nação e de seu povo."

A economista também aponta falhas no modelo. Questionou se a China precisa de 300 marcas de carros elétricos, o que considera desperdício, e disse que a competição entre governos locais estimula o endividamento e privilegia o PIB em detrimento do gasto social. Por isso, afirmou, os chineses poupam muito e consomem pouco. Ela menciona ainda uma disparidade de 15 para 1 entre as pensões urbanas e as rurais.

No mercado de trabalho, o desemprego geral é de cerca de 5,3%, mas chega a 18,9% entre jovens de 16 a 24 anos fora da escola, números apresentados pelo entrevistador. Jin atribui a diferença à desaceleração econômica e a um descompasso entre a formação dos jovens e o que a indústria pede, como no setor de semicondutores.

O que o Brasil pode aproveitar

Perguntada sobre o Brasil, Jin disse que o país deve adotar mecanismos, e não copiar um modelo, porque os sistemas políticos são diferentes. Citou quatro pontos: capacidade estatal focada, com políticas industriais bem pesquisadas; concorrência de mercado sem protecionismo que gere monopólios; funcionários locais cobrados por resultados mensuráveis; e mobilidade social.

Ela afirmou que países em desenvolvimento sofrem com corrupção, falta de transparência e instabilidade macroeconômica, e que esse é o gargalo. Para quem planeja investir em IA no Brasil, a leitura de Jin sugere que a vantagem estará menos em criar o modelo mais avançado e mais em quem consegue colocar a tecnologia para funcionar nas empresas e nos serviços públicos.

AD

Repórter de Tecnologia e Inteligência Artificial do Real Nacional. Cobre inteligência artificial, infraestrutura digital, regulação de tecnologia e as empresas que constroem a IA no Brasil. Mais textos · Expediente · Política editorial

Leia também

O essencial de IA e poder no Brasil, toda manhã.

Uma leitura de 4 minutos com o que move Brasília, o mercado e a corrida da inteligência artificial. Sem ruído.