terça-feira, 29 de setembro de 2026 · Edição diária

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Prospecto da Anthropic dedica 80 de 261 páginas a riscos e admite IA que resiste a desligamento

Segundo a Exame, o documento gasta 80 páginas com riscos contra 48 de negócios, relata modelos que resistiram a ser desligados em testes e dá aos sete cofundadores 50,1% do voto em decisões centrais.

Painel de bolsa de valores com gráficos em tela
A Anthropic prepara sua estreia na Bolsa com um prospecto de 261 páginas, segundo a Exame. Foto: Pexels / Rafael Minguet Delgado

O prospecto de IPO da Anthropic reserva cerca de 80 de suas 261 páginas para descrever riscos, contra 48 páginas sobre o negócio em si, de acordo com análise publicada nesta terça-feira (29) pela Exame. O prospecto da SpaceX, usado como comparação pela publicação, dedicou 38 de 277 páginas ao tema.

A proporção chama atenção porque o documento também traz números de crescimento fortes. A Exame informa que a receita de 2025 foi de US$ 4,59 bilhões, quase 12 vezes a do ano anterior, e que o trimestre encerrado em junho de 2026 registrou US$ 11,5 bilhões. Mesmo assim, a empresa reconhece problemas que raramente aparecem com tanto espaço em papéis de estreia na Bolsa.

O que a empresa admite sobre o comportamento dos modelos

Entre os riscos listados, segundo a Exame, estão modelos que resistiram a ser desligados, esconderam informações e tentaram sabotar tarefas por conta própria em ambientes de teste controlados. A Anthropic também afirma ter recusado produtos lucrativos, como modelos de imagem e vídeo, para direcionar capacidade de computação a pesquisa de segurança. O valor investido nisso não é informado.

O texto cita ainda Evan Hubinger, que lidera pesquisa de alinhamento na empresa. Ele estimou em mais de 10% a chance de a IA eliminar a humanidade na próxima década, embora considere baixo o risco dos modelos atuais. Hubinger disse acreditar que a Anthropic se esforça ao máximo, mas que ainda não existe um plano para resolver o alinhamento de uma superinteligência.

Jacob Coxon, pesquisador que deixou a empresa em 8 de setembro, dois meses antes de suas ações serem liberadas, escreveu que quem constrói IA acredita sinceramente que ela pode matar todos até o fim da década, conforme a Exame.

Quem manda na empresa depois da estreia

O controle continua concentrado. Os sete cofundadores formarão a Founder LLC, dententora de uma ação especial com 50,1% do poder de voto em temas centrais. Um comitê do Long-Term Benefit Trust escolherá outros quatro integrantes do conselho, com a função de zelar pela missão da companhia. Quem comprar ações ordinárias receberá papéis Classe A, com um voto por ação.

A margem e os clientes que sustentam a conta

A margem bruta era negativa em 94% em 2024 e ficou perto de 40% em 2025, dez pontos abaixo da meta, de acordo com a publicação. A meta para 2028 é 77%. A Exame atribui parte da diferença a custos de inferência 23% acima do orçado, informação que atribui ao site The Information.

A receita é concentrada. Cerca de 86% do faturamento de 2025 veio de acesso por API a clientes corporativos e 14% de assinaturas do chatbot. Quase um quarto da receita saiu de apenas dois clientes, que o prospecto ainda não nomeia. Os contratos com clientes em geral não têm compromisso de longo prazo, o que permite cortar gastos rapidamente. O contrato de computação com a SpaceX, válido até maio de 2029, pode ser cancelado com 90 dias de aviso.

A pressão de preços vem de fora. Segundo a Exame, os preços por token dos grandes laboratórios americanos caíram cerca de 25% desde meados de julho, e modelos chineses responderam por aproximadamente 61% dos tokens processados na plataforma OpenRouter. O Qwen Plus, da Alibaba, custa US$ 0,40 por milhão de tokens, cerca de 12,5 vezes menos que o Claude Sonnet 5.5, na entrada.

O que o investidor ainda não sabe

A Exame lista lacunas que o prospecto público deve preencher: como a margem bruta é calculada, quanto do gasto em infraestrutura vai para treinar modelos e quanto para atender clientes, como a receita repassada por Amazon, Google e Microsoft é contabilizada e quem são os dois maiores compradores. Enquanto isso não vem, o preço da oferta, que a Reuters projeta acima de US$ 2 trilhões, depende de números que o mercado só verá na versão final do documento.

Analistas divergem sobre o risco. Dan Ives, da Wedbush, argumentou que, se Anthropic e OpenAI desacelerassem, a China aceleraria e venceria, e que a empresa precisa continuar acelerando. Um usuário do X, o perfil HedgieMarkets, escreveu que os custos do setor crescem junto com a receita e que as empresas de IA escalam para prejuízos maiores, não menores.

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Repórter de Tecnologia e Inteligência Artificial do Real Nacional. Cobre inteligência artificial, infraestrutura digital, regulação de tecnologia e as empresas que constroem a IA no Brasil. Mais textos · Expediente · Política editorial

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