domingo, 25 de outubro de 2026 · Edição diária

Inteligência artificial · Política · Poder econômico

Apollo vê poucos sinais de ganho com IA fora das big techs e cita produtividade de 1,4% nos EUA

Relatório do economista Torsten Slok compara as sete gigantes de tecnologia com as outras 493 empresas do S&P 500 e vê poucos sinais de que a IA gere ganhos fora do topo. A produtividade americana avançou 1,4% anualizados no 2º trimestre de 2026, mas o dado não mede o efeito da tecnologia.

Fachada da bolsa de valores de Nova York, em Wall Street
A Apollo compara receita por funcionário e margens das sete maiores empresas de tecnologia com as outras 493 do S&P 500. Foto: Pexels / Mizuno K

A consultoria Apollo afirma que há poucos sinais claros de que os benefícios econômicos da inteligência artificial tenham chegado além das maiores empresas de tecnologia, segundo reportagem da Exame publicada neste domingo (25). A análise é do economista Torsten Slok e compara dois grupos do índice S&P 500: as sete empresas conhecidas como Magnificent Seven e as outras 493.

O método é simples. A Apollo coloca lado a lado a receita por funcionário e as margens de lucro dos dois grupos, em gráficos. A leitura da consultoria é que, se a IA estivesse espalhando ganhos pela economia, a diferença entre as gigantes e as demais deveria aparecer de forma mais nítida nesses indicadores. Ela não aparece, na avaliação da Apollo.

A própria comparação tem limites, e a reportagem os registra. Ela não mede o retorno de projetos individuais de IA e não demonstra que a tecnologia, sozinha, explica a diferença entre os grupos. O conjunto das 493 empresas também inclui companhias de tecnologia, então não representa a economia como um todo.

O que os números de produtividade mostram

Para dar contexto, a matéria cita dados oficiais dos Estados Unidos. De acordo com o Bureau of Labor Statistics (BLS), a produtividade do setor empresarial não agrícola cresceu 1,4% em ritmo anualizado no segundo trimestre de 2026 e 2,2% na comparação com o mesmo período do ano anterior.

O Fed de São Francisco calcula uma média anualizada de 2,5% entre o primeiro trimestre de 2023 e o segundo de 2026. De 2005 a 2022, a média foi de 1,5%. Os dois números são indicadores agregados da economia, e nenhum deles isola o efeito da IA. O próprio Fed de São Francisco deixa em aberto quanto da aceleração vem da tecnologia, e o BLS não informa a parcela atribuível a ela.

O gasto com ferramentas de IA desacelera

A segunda fonte de dados é o índice de IA da Ramp, plataforma de gestão de gastos que acompanha pagamentos de mais de 85 mil clientes empresariais nos EUA. Em um recorte dedicado à gestão de tokens, o volume processado cresceu mais rápido que o gasto entre as semanas encerradas em 13 de setembro e 11 de outubro.

O economista da Ramp associou a desaceleração do gasto a preços menores e a mais eficiência no uso. A leitura tem ressalvas: o índice só enxerga ferramentas pagas em contas corporativas, de modo que uso gratuito ou pessoal fica de fora, e o recorte de tokens não representa o mercado inteiro.

Como ler isso antes de decidir um investimento

Para quem aprova orçamento de IA, a mensagem prática é que nenhum dos dados citados serve como veredito sobre o retorno de um projeto específico. Margens estáveis nas empresas fora do topo não excluem projetos lucrativos dentro delas, e receita por funcionário não equivale a produtividade por hora trabalhada.

Segundo a reportagem, avaliar o retorno exige ligar o custo de cada projeto ao seu resultado, algo que comparações entre grupos de empresas não fazem. Na prática, a conclusão da Apollo funciona como alerta sobre a distribuição dos ganhos, e a medição do retorno continua dependendo de cada empresa.

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Repórter de Tecnologia e Inteligência Artificial do Real Nacional. Cobre inteligência artificial, infraestrutura digital, regulação de tecnologia e as empresas que constroem a IA no Brasil. Mais textos · Expediente · Política editorial

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