A CoreWeave anunciou em março de 2026 uma linha de crédito de até US$ 8,5 bilhões, ancorada pela Blackstone Credit & Insurance e estruturada por MUFG e Morgan Stanley, em que os chips de inteligência artificial servem de garantia. A operação, descrita pela Exame neste domingo (25), mostra como o financiamento de GPUs deixou de ser exceção e entrou no portfólio de grandes gestoras.
No modelo, o credor financia a infraestrutura e recebe direitos sobre o equipamento e, conforme o contrato, sobre as receitas da operação. Segundo a Exame, os pagamentos regulares saem do negócio. A garantia funciona como rota de recuperação caso haja inadimplência.
Do US$ 2,3 bi de 2023 à linha de US$ 8,5 bi
A Blackstone participa desse movimento desde operações como a linha de US$ 2,3 bilhões anunciada pela CoreWeave em agosto de 2023, liderada pela Magnetar e por fundos da gestora. A linha de março é maior: o limite inicialmente permitido era de cerca de US$ 7,5 bilhões.
A Exame faz uma ressalva sobre o número: limite contratado não significa valor integralmente sacado. Esse tipo de linha é usado conforme a infraestrutura é construída e amortizado com as receitas. O anúncio de US$ 8,5 bilhões indica o teto da operação, não prova que o dinheiro todo já foi utilizado.
O tomador e dono das GPUs é a CoreWeave Compute Acquisition Co. VIII LLC, uma sociedade de propósito específico. Ter uma entidade assim, ou ter chips como lastro, não torna automaticamente o financiamento uma securitização, que envolve títulos emitidos a investidores e lastreados em ativos ou direitos de pagamento.
O contrato com a Meta sustenta o pagamento
Segundo a Morningstar DBRS, a estrutura se apoia em um contrato de capacidade com a Meta, com pagamentos ligados à capacidade contratada e à disponibilidade esperada. A amortização segue até o vencimento, em 2032, sem depender de refinanciamento.
A agência também aponta riscos de atrasos, de equipamento, de energia e de execução por parte da CoreWeave. Ou seja, o chip como garantia não elimina o risco de crédito. Se o data center atrasa ou a energia não chega, a receita que paga a dívida também atrasa.
O relatório anual da CoreWeave traz outra limitação. A vida útil contábil de seis anos atribuída aos equipamentos não garante que eles manterão valor econômico nesse prazo, porque novas gerações de chips podem acelerar a obsolescência.
A aposta de US$ 35 bi para a Anthropic
O modelo também aparece em outras frentes. A Broadcom, a Apollo e a Blackstone anunciaram em junho a plataforma AI XPV, com tamanho inicial de US$ 35 bilhões para sustentar mais de um gigawatt de capacidade para a Anthropic. A meta é chegar a 20 gigawatts até 2028.
Um documento da Broadcom enviado a reguladores descreve garantias adicionais como condicionais e limitadas, e não como cobertura irrestrita de qualquer perda. O mesmo texto aponta exposição ao crédito dos clientes e à queda no valor dos ativos.
Quem carrega o risco
Para o investidor que compra dívida desse tipo, o ponto central é a solidez do contrato de uso da capacidade, como o da Meta, e não o valor de revenda dos chips. Para as empresas de IA, o crédito garantido por equipamento permite expandir a capacidade sem esperar o caixa. O custo é ficar atrelado a prazos de entrega, a energia disponível e a uma tecnologia que pode envelhecer antes de a dívida vencer em 2032.



