Bilionários do Vale do Silício estão assumindo uma fatia crescente do financiamento da ciência, segundo reportagem da Exame publicada nesta terça-feira (27) com base em levantamento da revista Nature. A OpenAI Foundation prometeu US$ 25 bilhões para saúde, cura de doenças e resiliência em IA, e a Chan Zuckerberg Initiative planeja destinar até US$ 10 bilhões extras na próxima década.
A premissa do relatório é a incerteza sobre o dinheiro público, sobretudo nos Estados Unidos. Investidores privados conseguem bancar projetos longos e de alto risco com mais liberdade do que agências governamentais, que dependem de ciclos orçamentários e de aprovação política.
Quem já pôs dinheiro na mesa
A Altos Labs, empresa de longevidade criada em 2022 com US$ 3 bilhões, teve participação de Jeff Bezos e Yuri Milner. Sam Altman aplicou cerca de US$ 180 milhões na Retro Biosciences, que estuda o envelhecimento. Sergey Brin, cofundador do Google, destinou mais de US$ 1 bilhão à pesquisa sobre Parkinson, e Sean Parker, ex-executivo do Facebook, doou centenas de milhões de dólares à imunoterapia contra o câncer.
A Chan Zuckerberg Initiative, de Mark Zuckerberg e Priscilla Chan, já alocou cerca de US$ 4 bilhões em ciência básica e outras causas. Já a Fundação Gates, tradicional financiadora de vacinas e doenças infecciosas, anunciou em 2025 um compromisso de aproximadamente US$ 200 bilhões ao longo de duas décadas.
A IA como destino do dinheiro
Parte dos recursos vai para modelos de inteligência artificial aplicados à biologia. Em abril, a Chan Zuckerberg Initiative anunciou US$ 500 milhões para desenvolver modelos que preveem o comportamento de células humanas. Em 2026, também foram anunciados mais de US$ 100 milhões para pesquisa em Alzheimer e US$ 125 milhões para projetos de dados em ciências da vida.
O Arc Institute, fundado em 2021 com US$ 650 milhões em doações, e a Convergent Research, que monta equipes para criar ferramentas e métodos científicos, completam o mapa de instituições citado pela reportagem. Há ainda frentes polêmicas: a Preventive, apoiada por Brian Armstrong, da Coinbase, pesquisa edição genética hereditária para evitar doenças.
Quem controla a agenda da pesquisa
A filantropia e as organizações sem fins lucrativos financiaram cerca de US$ 25 bilhões em pesquisa e desenvolvimento nos EUA em 2024, algo como 11% do total. Um estudo do mesmo ano indicou que as doações americanas tendem a se concentrar em regiões onde os doadores têm vínculos pessoais.
Rob Reich, cientista político de Stanford, afirmou que organizações filantrópicas não estão sujeitas aos mesmos mecanismos de prestação de contas que as instituições públicas. Joshua Graff Zivin, da Universidade da Califórnia em San Diego, disse que a falta de relatórios padronizados dificulta comparar os modelos de financiamento. Há ainda o risco de que aportes grandes criem expectativas financeiras difíceis de cumprir em biotecnologia, onde a pesquisa leva anos.
A conclusão dos especialistas ouvidos é que o dinheiro privado pode ampliar o que a ciência consegue fazer, em especial em projetos de longo prazo, mas não substitui o financiamento governamental. Para países como o Brasil, que dependem de agências públicas, a consequência prática é que a agenda de parte da pesquisa de ponta tende a ser definida por quem tem fortuna e interesse próprio, e não por editais abertos.



