A Financial Conduct Authority (FCA), que supervisiona o mercado financeiro do Reino Unido, alertou as empresas do setor para revisarem seus métodos de criptografia diante do avanço da inteligência artificial em matemática, segundo o Financial Times, em reportagem reproduzida pelo NeoFeed em 29 de outubro. O órgão testa uma ferramenta com 50 grandes instituições para medir o grau de preparação delas para riscos ligados a IA e computação quântica.
A FCA também pretende divulgar recomendações para mais de 35 mil empresas de serviços financeiros sob sua supervisão. Ao FT, o regulador afirmou que as ameaças cibernéticas evoluem rapidamente com os avanços dessas duas tecnologias.
Por que a matemática importa para a segurança
Boa parte da proteção de contas bancárias e de dados corporativos depende de problemas matemáticos que computadores convencionais não resolvem em tempo útil. O RSA, citado pelo NeoFeed como exemplo, usa a multiplicação de números primos muito grandes. Multiplicar é simples. Descobrir os fatores originais a partir do resultado é, hoje, impraticável.
O temor é que modelos de IA cada vez melhores em matemática encontrem atalhos para esse tipo de problema. Segundo a reportagem, não há evidências de que isso tenha acontecido: a IA não quebrou os principais métodos de criptografia em uso.
OpenAI e a reação dos matemáticos
No início de outubro, a OpenAI começou a divulgar centenas de trabalhos matemáticos, alguns com soluções para problemas antigos. A empresa afirma que os resultados vieram com ajuda de seus modelos de IA.
A divulgação provocou reação. A Association for Human Mathematics, organização criada para proteger a matemática da ameaça que enxerga na IA, criticou a OpenAI e pediu que pesquisadores deixassem de colaborar com a empresa.
Na semana anterior à publicação, companhias de vários países correram para corrigir vulnerabilidades na linguagem PHP, identificadas em parte por modelos de IA da OpenAI e do Google. O episódio mostra o uso prático dessas ferramentas na busca por falhas de software.
O que dizem os brasileiros
A computação quântica entra na conta porque, segundo o NeoFeed, um computador quântico suficientemente poderoso poderia comprometer algoritmos de criptografia amplamente usados. Essas máquinas ainda estão em desenvolvimento.
Alberto Leite, fundador do Grupo FS, disse ao NeoFeed no evento NeoSummit "IA na Real", em setembro, que a tecnologia, quando chegar a um ambiente mais popularizado, vai gerar um "crash no modelo de criptografia que temos". Segundo ele, as empresas têm dificuldade para testar suas defesas, porque os computadores quânticos disponíveis são experimentais e não rompem os principais sistemas.
No Inter, Bruno Grossi, head de ativos digitais, afirmou ao NeoFeed que uma das frentes do Inter Science, hub de pesquisa do banco em IA, blockchain e computação quântica, é o desenvolvimento de mecanismos de criptografia mais avançados.
Consequência prática para bancos e empresas
Para instituições financeiras brasileiras, o movimento britânico indica o que reguladores podem passar a cobrar: inventário dos métodos de criptografia em uso e plano de troca. A matéria do NeoFeed não cita medida equivalente de órgãos brasileiros.
Por ora, o risco é de preparação, não de ataque consumado. Quem protege dados de longa vida útil, como contratos, cadastros e histórico financeiro, tem motivo para mapear onde o RSA e algoritmos semelhantes estão instalados.



