Gestoras de fundos estruturam veículos para construir e comprar data centers no Brasil, num mercado que exigirá cerca de US$ 55 bilhões (perto de R$ 300 bilhões) em obras físicas na próxima década, segundo cálculo da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC) publicado em reportagem da Exame nesta quarta-feira (30). A demanda por inteligência artificial pressiona uma oferta de espaço que já estava apertada.
A estimativa da ABDC parte de uma projeção de 5,1 gigawatts (GW) de capacidade dos grandes provedores de nuvem em dez anos. Os Estados Unidos, para comparação, operam 47,3 GW, o equivalente a 94,1% da capacidade das Américas.
São Paulo tem 4,1% de vacância e 250 MW em obras
Os dados de mercado saíram do relatório Americas DC Update 1H 2026, da Cushman & Wakefield. Em São Paulo, a capacidade em operação subiu de 623 megawatts (MW) para 661 MW no primeiro semestre de 2026, com vacância de 4,1%. A capacidade em construção foi de 148 MW para 250 MW, e os projetos planejados somam 2 GW.
A conta física explica por que o setor entrou no radar do mercado imobiliário. Segundo Roberto Miranda de Lima, CEO da Arch Capital e fundador da 247 Data Centers, cada 10 MW exigem entre 8 mil e 10 mil metros quadrados construídos. O imóvel não se encaixa na categoria de galpão logístico nem na de escritório.
Três gestoras, três caminhos para o mesmo ativo
A Arch Capital estruturou um fundo de investimento em participações, com perfil de private equity, para desenvolver data centers do zero para hyperscalers, as grandes empresas globais de tecnologia. A 247 Data Centers, criada em 2024, tem dois projetos que somam 156 MW. Lima citou a expansão da transmissão de energia entre os desafios e mencionou o Redata entre os fatores que afetam o custo de equipamentos.
A Alianza atua em duas frentes: a Alianza Digital, dentro do fundo listado ALZR11 e voltada a pessoas físicas, e outra institucional, para ativos em obras. O sócio Fábio Carvalho contou que a gestora comprou em 2018 um condomínio logístico com dois galpões, depois convertidos em data centers. O portfólio digital tem hoje dois data centers, com 6 MW e cerca de 13% do patrimônio do ALZR11, e inquilinos como Sky e Scala. Um projeto em desenvolvimento prevê R$ 250 milhões para 20 MW iniciais, com possibilidade de chegar a R$ 750 milhões.
A AZ Quest foi pelo fundo imobiliário voltado ao investidor comum. O AZ Quest Panorama Data Centers captou R$ 482 milhões de mais de 7 mil investidores e comprou quatro ativos da Scala em operação de sale and leaseback: a operadora vende os imóveis ao fundo e continua neles como inquilina, com contratos de dez anos. Cerca de 60% do valor do fundo está em um data center em Fortaleza.
Quem financia a obra e onde está o risco
Parte do dinheiro vem de cotistas de fundos listados na B3, que passam a ter renda atrelada a contratos de longo prazo com operadoras de nuvem. O retorno depende de o inquilino manter a demanda por capacidade e de as obras receberem energia no prazo, já que a oferta em São Paulo, nos polos de Campinas e Barueri, opera com pouca folga.
A reportagem menciona ainda ativos em Santana de Parnaíba, Tamboré e Jundiaí. Com 250 MW em construção e 2 GW planejados, a maior parte da capacidade anunciada continua no papel, e os próprios gestores apontam a transmissão de energia como gargalo.



