A quarta rodada da pesquisa nacional Indexa/Broadcast, divulgada em 26 de agosto, mostra que 72% dos brasileiros afirmam conseguir identificar um conteúdo manipulado por inteligência artificial. O índice aparece ao lado de um salto de 308% nos casos de deepfake mapeados pelo Observatório Lupa, que passou de 39 registros em 2024 para 159 em 2025, segundo reportagem publicada pelo Congresso em Foco.
Dentro do total de 72%, o levantamento divide os entrevistados em dois graus de confiança. Segundo a pesquisa, 39% se dizem totalmente capazes de reconhecer um vídeo ou áudio falso, e outros 33% afirmam ser mais capazes do que incapazes de fazer essa distinção. Os 28% restantes se declaram pouco ou nada capazes de identificar esse tipo de conteúdo.
Confiança varia por idade e nível de ensino
A confiança varia por faixa etária, de acordo com a pesquisa Indexa/Broadcast. Entre 35 e 44 anos, 81% dizem reconhecer conteúdo sintético, percentual que cai para 77% na faixa de 16 a 24 anos, para 69% entre 45 e 59 anos e para 53% a partir dos 60 anos.
A escolaridade segue padrão semelhante: 82% dos entrevistados com ensino superior dizem identificar deepfakes, contra 69% entre os que têm ensino médio e 67% entre os que pararam no ensino fundamental. No recorte político, a rejeição é quase unânime. Segundo o levantamento, 92% discordam do uso de vídeos falsos contra um adversário e 84% rejeitam a prática mesmo em benefício da própria candidatura, e apenas 6% aceitariam o recurso contra um rival.
O vídeo que endureceu a regra do TSE
O debate ganhou força depois que um vídeo com inteligência artificial simulando o ex-presidente Jair Bolsonaro foi exibido na convenção que confirmou Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como candidato do partido ao Planalto, em julho. Para esta eleição, o Tribunal Superior Eleitoral passou a exigir que conteúdo produzido ou alterado de forma substancial por inteligência artificial seja identificado de forma explícita, destacada e acessível. A corte também proibiu deepfakes destinadas a favorecer ou prejudicar candidaturas, segundo o Congresso em Foco.
O Observatório Lupa, citado na reportagem, soma no levantamento tanto deepfakes quanto outras peças de desinformação produzidas com inteligência artificial, entre vídeos, áudios e imagens. O avanço de 39 para 159 casos entre 2024 e 2025 cobre justamente o período que antecede a disputa presidencial de outubro.
A janela de 72 horas antes da votação
A norma do TSE reserva uma restrição adicional para as 72 horas anteriores e as 24 horas posteriores à votação. Nesse intervalo, a verificação de fatos tem menos tempo para circular antes de o eleitor decidir o voto. Segundo o Congresso em Foco, uma peça de desinformação não precisa convencer a maioria do eleitorado: basta atingir um grupo pequeno e decisivo perto da urna para influenciar o resultado.
Há ainda um risco adicional, segundo a reportagem: usar a desconfiança em relação à inteligência artificial para negar fatos verdadeiros, alegando que imagens ou áudios legítimos seriam produto de manipulação. Diante dessa possibilidade, o texto defende uma resposta que combine fiscalização do TSE, atuação das plataformas e educação para o consumo de informação, sem apontar qual desses fatores pesa mais no resultado de outubro.




