Um sistema de inteligência artificial chamado REDMOD identificou sinais de câncer de pâncreas em tomografias que radiologistas experientes haviam considerado normais, segundo estudo publicado na revista científica Gut e relatado pela Exame neste domingo (1º). Os exames foram feitos, em média, 475 dias antes do diagnóstico, e alguns deles até três anos antes.
No conjunto geral de testes, a sensibilidade da IA foi de 73%. Os radiologistas, olhando as mesmas imagens, chegaram a 39%. A matéria da Exame não informa os nomes dos pesquisadores nem as instituições responsáveis.
Como o REDMOD lê o que o olho não vê
O nome é a sigla em inglês para Modelo de Detecção Precoce Baseado em Radiômica. A radiômica extrai das imagens padrões de textura do tecido que não aparecem a olho nu. O sistema localiza o pâncreas sozinho, separando o órgão das estruturas vizinhas, e dispensa a delimitação manual feita por especialistas.
O alvo do estudo foi o adenocarcinoma ductal pancreático, o tipo mais comum da doença. A amostra reuniu tomografias de 219 pacientes diagnosticados depois do exame e imagens de 1.243 pessoas que não tiveram o diagnóstico em até três anos de acompanhamento.
Entre os 219 casos, 87 exames foram feitos de 3 a 12 meses antes do diagnóstico, 76 entre 12 e 24 meses antes e 56 com mais de dois anos de antecedência. Nesse último grupo, o mais difícil, a IA alcançou sensibilidade de 68%. Os radiologistas ficaram em 23%.
Falsos alarmes e consistência
Um detector que dispara demais perde utilidade. Num conjunto independente de 539 pacientes sem câncer, de hospitais diferentes, o REDMOD classificou corretamente pouco mais de 81% como negativos. Em 80 exames sem câncer pancreático de uma base dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), o acerto foi de 87,5%.
Em tomografias repetidas dos mesmos pacientes, feitas em momentos diferentes, os resultados coincidiram em 90% a 92% das avaliações. Segundo os autores, os dados indicam que a IA pode reconhecer alterações associadas ao câncer antes de os sinais aparecerem em exames convencionais.
O que ainda impede o uso no consultório
Os próprios pesquisadores dizem que o REDMOD não está validado para a rotina médica. Eles pedem estudos prospectivos, principalmente com pessoas de maior risco, como pacientes com perda de peso sem explicação ou com diagnóstico recente de diabetes.
Há duas lacunas adicionais. A diversidade étnica dos participantes foi considerada insuficiente para avaliar o desempenho em diferentes populações. E o trabalho não mostrou que detectar mais cedo aumenta a sobrevida, o que depende de novos estudos sobre utilidade clínica.
Na prática, hospitais e planos de saúde não devem esperar o REDMOD nos serviços de imagem no curto prazo. O caminho descrito é o de ensaios com grupos de risco, e só depois disso uma eventual adoção como segunda leitura de tomografias que hoje saem como normais.



