domingo, 1 de novembro de 2026 · Edição diária

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IA acha câncer de pâncreas em tomografias 'normais' e acerta 73% contra 39% de radiologistas

O sistema REDMOD apontou alterações em exames feitos, em média, 475 dias antes do diagnóstico. Teve sensibilidade de 73% no estudo publicado na revista Gut, mas ainda não está validado para uso rotineiro.

Médico analisa imagem de tomografia computadorizada em uma sala de radiologia
Tomografias consideradas normais por radiologistas foram reanalisadas por um sistema de IA em estudo publicado na revista Gut. Foto: Pexels / cottonbro studio

Um sistema de inteligência artificial chamado REDMOD identificou sinais de câncer de pâncreas em tomografias que radiologistas experientes haviam considerado normais, segundo estudo publicado na revista científica Gut e relatado pela Exame neste domingo (1º). Os exames foram feitos, em média, 475 dias antes do diagnóstico, e alguns deles até três anos antes.

No conjunto geral de testes, a sensibilidade da IA foi de 73%. Os radiologistas, olhando as mesmas imagens, chegaram a 39%. A matéria da Exame não informa os nomes dos pesquisadores nem as instituições responsáveis.

Como o REDMOD lê o que o olho não vê

O nome é a sigla em inglês para Modelo de Detecção Precoce Baseado em Radiômica. A radiômica extrai das imagens padrões de textura do tecido que não aparecem a olho nu. O sistema localiza o pâncreas sozinho, separando o órgão das estruturas vizinhas, e dispensa a delimitação manual feita por especialistas.

O alvo do estudo foi o adenocarcinoma ductal pancreático, o tipo mais comum da doença. A amostra reuniu tomografias de 219 pacientes diagnosticados depois do exame e imagens de 1.243 pessoas que não tiveram o diagnóstico em até três anos de acompanhamento.

Entre os 219 casos, 87 exames foram feitos de 3 a 12 meses antes do diagnóstico, 76 entre 12 e 24 meses antes e 56 com mais de dois anos de antecedência. Nesse último grupo, o mais difícil, a IA alcançou sensibilidade de 68%. Os radiologistas ficaram em 23%.

Falsos alarmes e consistência

Um detector que dispara demais perde utilidade. Num conjunto independente de 539 pacientes sem câncer, de hospitais diferentes, o REDMOD classificou corretamente pouco mais de 81% como negativos. Em 80 exames sem câncer pancreático de uma base dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), o acerto foi de 87,5%.

Em tomografias repetidas dos mesmos pacientes, feitas em momentos diferentes, os resultados coincidiram em 90% a 92% das avaliações. Segundo os autores, os dados indicam que a IA pode reconhecer alterações associadas ao câncer antes de os sinais aparecerem em exames convencionais.

O que ainda impede o uso no consultório

Os próprios pesquisadores dizem que o REDMOD não está validado para a rotina médica. Eles pedem estudos prospectivos, principalmente com pessoas de maior risco, como pacientes com perda de peso sem explicação ou com diagnóstico recente de diabetes.

Há duas lacunas adicionais. A diversidade étnica dos participantes foi considerada insuficiente para avaliar o desempenho em diferentes populações. E o trabalho não mostrou que detectar mais cedo aumenta a sobrevida, o que depende de novos estudos sobre utilidade clínica.

Na prática, hospitais e planos de saúde não devem esperar o REDMOD nos serviços de imagem no curto prazo. O caminho descrito é o de ensaios com grupos de risco, e só depois disso uma eventual adoção como segunda leitura de tomografias que hoje saem como normais.

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Repórter de Tecnologia e Inteligência Artificial do Real Nacional. Cobre inteligência artificial, infraestrutura digital, regulação de tecnologia e as empresas que constroem a IA no Brasil. Mais textos · Expediente · Política editorial

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