domingo, 1 de novembro de 2026 · Edição diária

Inteligência artificial · Política · Poder econômico

IA da USP e de Uppsala localiza a artéria bloqueada no infarto mais letal usando só o ECG

Modelo treinado com 540.372 exames acerta 96% dos casos com supra-ST e distingue a oclusão em 82% dos que não mostram alteração evidente, segundo a Agência Fapesp.

Monitor de eletrocardiograma exibindo o ritmo cardíaco de um paciente
O sistema usa apenas o eletrocardiograma de 12 derivações, exame rápido e de baixo custo, para indicar oclusão nas artérias do coração. Foto: Pexels / Marta Branco

Um sistema de inteligência artificial desenvolvido pela Universidade de Uppsala, na Suécia, em parceria com a USP, identifica o tipo mais grave de infarto, causado pelo bloqueio total de uma artéria do coração, e indica o local da obstrução a partir de um eletrocardiograma. A informação é da Agência Fapesp, republicada pelo Poder360 neste domingo (1º de novembro de 2026). O estudo foi publicado na revista Nature Communications.

A ferramenta ainda é experimental. De acordo com José Eduardo Krieger, diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do InCor-USP (Instituto do Coração) e coautor do trabalho, o modelo é o primeiro validado em população brasileira para identificar e localizar infartos por oclusão coronariana usando só o ECG de 12 derivações, um exame rápido, acessível e de baixo custo.

Por que o ECG comum deixa casos graves passarem

Muitos pacientes com artéria totalmente bloqueada não apresentam no eletrocardiograma o supradesnivelamento do segmento ST (supra-ST), o marcador clássico do infarto. Sem ele, o exame lido a olho nu pode não alertar para a urgência. O modelo reconhece padrões que, segundo a Agência Fapesp, muitas vezes escapam à análise visual.

O problema aparece na ambulância. O médico precisa decidir se aplica um trombolítico, remédio que salva vidas mas pode causar efeitos colaterais graves, como o AVC hemorrágico. Uma indicação mais segura de que a artéria está mesmo ocluída ajudaria a encaminhar mais cedo quem precisa de cateterismo urgente.

Os números do treinamento e da validação no InCor

O sistema foi treinado com 540.372 exames de ECG de 225.884 pacientes atendidos em serviços de emergência na Suécia entre 2005 e 2016. Desse total, 534.510 exames eram de pessoas sem infarto, 1.583 de pacientes com oclusão coronariana aguda e 4.279 de pacientes com infarto sem oclusão aguda. Os achados foram comparados com a angiografia coronariana (cateterismo), tratada como padrão-ouro.

A validação independente usou 401 pacientes atendidos no InCor entre 2017 e 2024, sendo 236 sem oclusão aguda e 165 com, todos confirmados por cateterismo. Os pesquisadores também recorreram a dados públicos de ECG de 12 derivações da Europa e a um banco de dados da UFMG.

Marco Antonio Gutierrez, diretor do Serviço de Informática e do Laboratório de Informática Biomédica do InCor e coautor, afirmou que a acurácia é de 96% nos casos com supra-ST bem definido. Nos casos sem alterações evidentes, a ferramenta distinguiu corretamente a oclusão em 82% das avaliações.

O que falta antes de chegar ao atendimento de emergência

Os autores dizem que a tecnologia apoia a decisão médica e não a substitui. Krieger afirmou que a IA não fornece o diagnóstico final nem dispensa o julgamento clínico do médico. O próximo passo é aprofundar a validação no InCor, que tem uma base de 30 mil ECGs revisados por especialistas, para medir desempenho e limitações em condições reais de atendimento.

A expectativa dos pesquisadores é que o modelo analise o exame em tempo real e aponte quase de imediato sinais de oclusão aguda. Para chegar a hospitais e ambulâncias, porém, o uso clínico depende de aprovação da Anvisa. Até lá, o ECG continua sendo lido pelo médico, sem apoio do algoritmo.

AD

Repórter de Tecnologia e Inteligência Artificial do Real Nacional. Cobre inteligência artificial, infraestrutura digital, regulação de tecnologia e as empresas que constroem a IA no Brasil. Mais textos · Expediente · Política editorial

Leia também

O essencial de IA e poder no Brasil, toda manhã.

Uma leitura de 4 minutos com o que move Brasília, o mercado e a corrida da inteligência artificial. Sem ruído.