A CNN Brasil publicou neste domingo (1º) uma reportagem sobre influenciadores criados por inteligência artificial, personagens que ganham rosto realista, audiência e contratos publicitários nas redes sociais. Segundo o texto, assinado por Lucas Guimarães, alguns deles já conseguem se passar por pessoas reais.
A reportagem define esses perfis como personagens digitais construídos para ocupar o mesmo espaço dos criadores de conteúdo humanos. Eles publicam fotos e vídeos, têm personalidade, interagem com seguidores e aparecem em campanhas comerciais. O texto liga o fenômeno à chamada teoria da internet morta, que sugere que grande parte do conteúdo online acabará produzida por IA e bots.
Do boxe em Paris à criptomoeda
O caso mais visto é o de Jean Philanthrope, o Jean Phil: personagem de cabelo loiro, bigode e terno que viralizou com vídeos de dança e golpes de boxe pelas ruas de Paris e Bruxelas. Um dos primeiros vídeos passou de 36 milhões de visualizações no Instagram em poucos dias. De acordo com a CNN, o criador disse à imprensa belga que a IA é parte importante da produção, mas que os vídeos não são inteiramente gerados de forma artificial.
Na prática, ele partiu de uma gravação real de uma pessoa fazendo boxe na rua e trocou visualmente essa pessoa pelo personagem, mantendo o restante da cena. O perfil também promovia a criptomoeda JEANPHIL, que foi acusada nas redes de ser um esquema de "pump and dump". Segundo a reportagem, análises posteriores não encontraram evidências que confirmem a acusação, e o criador retirou a divulgação depois que o personagem ficou famoso no mundo todo.
Marisa Maiô e as marcas brasileiras
No Brasil, a CNN cita Marisa Maiô, personagem criada por IA que estrelou campanhas publicitárias em 2025. Depois de viralizar, ela foi contratada para peças de Magazine Luiza, OLX e Amstel. No início dessa onda, diz a reportagem, ainda era relativamente fácil perceber que havia IA na produção. Hoje, a identificação ficou muito mais difícil.
A CNN lista as ferramentas usadas pelos criadores: Higgsfield AI, Kling AI, Runway, HeyGen e Midjourney. Segundo o texto, esses modelos identificam a região ocupada pela pessoa no vídeo e usam referências visuais para reconstruir rosto, cabelo, roupas e proporções do corpo. Ferramentas experimentais já substituem a pessoa de uma filmagem por uma imagem de referência, preservando os movimentos e parte do cenário.
Manter o personagem idêntico de um vídeo para o outro é o gargalo técnico. Descrições como "homem loiro de bigode" não garantem os mesmos traços, então os criadores geram primeiro imagens de referência da aparência e só depois as aplicam nos modelos de vídeo. Ângulos diferentes, objetos passando na frente do personagem, mudanças de iluminação e movimentos complexos ainda provocam falhas.
De onde vem o dinheiro e o que falta saber
A reportagem aponta três fontes de receita para esses perfis: publicações patrocinadas, campanhas publicitárias e licenciamento da própria imagem do personagem. O caso de Marisa Maiô mostra que anunciantes de varejo, classificados e bebidas já aceitam contratar uma criadora que não existe fora da tela.
A CNN não informa valores de contratos nem o número de seguidores de Marisa Maiô, o que impede medir o tamanho desse mercado no Brasil. Também não há dados na matéria sobre regras de identificação de conteúdo feito por IA em peças publicitárias. Para quem contrata ou consome esse tipo de campanha, a única evidência concreta até agora são os casos citados: três marcas conhecidas e um vídeo com 36 milhões de visualizações.



