A Nvidia reportou US$ 36 bilhões (cerca de R$ 194 bilhões) em acordos de financiamento e garantias fora do balanço ligados às chamadas neoclouds, empresas de nuvem especializadas em IA, segundo reportagem do Olhar Digital publicada neste domingo (25) com base nos documentos financeiros da companhia. A fabricante de chips passou a bancar parte da demanda que compra os próprios processadores, justamente quando as ações de parceiros caem e o crédito fica mais caro.
A maior peça é uma garantia de até US$ 105 bilhões (R$ 567 bilhões) vinculada a um projeto de data center da OpenAI em Pike County, no Ohio, que pode virar o maior do mundo e deve usar equipamentos da Nvidia por pelo menos 20 anos. A empresa também assinou contratos de aluguel de futuros data centers no valor de US$ 20 bilhões (R$ 108 bilhões), que pretende repassar a terceiros. A maior parte dessas obrigações é contingente: só vira pagamento se algum participante der calote ou violar uma cláusula financeira, e a Nvidia não necessariamente desembolsou esses valores.
Como a Nvidia sustenta os clientes
Os instrumentos variam. Em alguns contratos, a empresa garante um preço mínimo de revenda dos equipamentos ou um valor mínimo de contrato pela capacidade de processamento. Em outros, compromete-se a comprar a capacidade se o fornecedor não achar outro cliente. No caso da CoreWeave, o compromisso chega a US$ 6,3 bilhões (R$ 34 bilhões).
Em agosto, a Nvidia informou mais de US$ 500 bilhões (R$ 2,7 trilhões) em compromissos fora do balanço para os próximos anos, a maioria com vencimento até o ano fiscal de 2029. No mesmo mês, Jensen Huang anunciou parceria com seis grandes gestoras para mobilizar até US$ 500 bilhões em infraestrutura de IA, com garantias de até US$ 125 bilhões (R$ 675 bilhões) sobre o valor residual de GPUs financiadas. A Nvidia também aportou US$ 2 bilhões no primeiro fundo de infraestrutura de IA da Brookfield. Huang disse à CNBC que a demanda das neoclouds é extraordinária, mas falta capital de giro para expandir.
Parceiros sob pressão no mercado
CoreWeave, Nebius e IREN, todas grandes consumidoras de caixa, tiveram queda de ao menos 30% nas ações em outubro, de acordo com a CNBC. O custo de seguro contra calote da CoreWeave (CDS) passou de 11%, e os títulos da empresa com vencimento em 2031 e 2032 pagam mais de 15% ao ano. A dívida total da companhia é de cerca de US$ 51,6 bilhões (R$ 279 bilhões). A australiana Firmus desistiu do IPO neste mês, e Nscale e SB Energy, que pediram listagem nos EUA em setembro, não divulgaram novidades. A própria Nvidia caiu 7,6% em outubro e fechou a sexta-feira (23) na terceira semana seguida de perdas.
Quem fica com o risco se a demanda decepcionar
No acordo de Ohio, se a OpenAI deixar de pagar o aluguel ou quebrar, a Nvidia pode assumir o contrato, buscar outro inquilino ou exigir a venda da instalação. Se um novo aluguel ou a venda ficar abaixo de um preço mínimo combinado, ela cobre a diferença em certas condições. A garantia pode acabar se a OpenAI oferecer garantias próprias ou alcançar uma nota de crédito suficientemente alta.
David Trainer, fundador da New Constructs, disse à CNBC que uma procura por processamento abaixo das expectativas elevadas do setor pode causar problemas. A consultoria estima que o valor presente das obrigações fora do balanço da Nvidia no ano fiscal de 2026 passou de US$ 153 bilhões, alta de mais de US$ 100 bilhões sobre o ano anterior. A Moody's afirma que garantias foram a modalidade de financiamento fora do balanço que mais cresceu em 2026.
A Nvidia sustenta que seus parceiros têm demanda sólida e carteiras de vendas robustas, e que o limite está na capacidade de construir infraestrutura. Ela tem fôlego para isso: gerou US$ 70 bilhões em fluxo de caixa livre no primeiro semestre, contra pouco mais de US$ 4 bilhões da AMD. A empresa busca seguradoras para cobrir parte do risco de perda de valor dos equipamentos, mas Tom Hoad, da Howden, afirmou que o seguro ajuda em alguns negócios e não resolve o problema por inteiro.



