terça-feira, 3 de novembro de 2026 · Edição diária

Inteligência artificial · Política · Poder econômico

Milei oferece imposto de 15% e IA sem regras para atrair US$ 3 bi em data centers na Patagônia

A Argentina promete reduzir de 25% para 15% o imposto de renda sobre investimentos de ao menos US$ 1 bilhão em IA e não regular a tecnologia. A polonesa Green Capital planeja US$ 3 bilhões em um complexo que poderia consumir 2,7 vezes a eletricidade de Buenos Aires.

Corredor de servidores em um data center
A construção do complexo de data centers na província de Chubut, na Patagônia, não deve começar antes de 2028, segundo o Olhar Digital. Foto: Elekes Andor / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

O governo do presidente argentino Javier Milei quer transformar a Patagônia em polo de data centers para inteligência artificial e oferece a empresas de tecnologia um imposto menor e a promessa de que a IA não será regulada, segundo reportagem do Olhar Digital publicada nesta terça-feira (3), baseada em apuração da Associated Press. A estratégia já atraiu conversas com OpenAI, Amazon e Google, mas esbarra em dúvidas sobre consumo de energia e água e sobre quem ganha com a capacidade instalada.

Em encontro com a Câmara de Comércio dos Estados Unidos, no mês passado, Milei afirmou que seu governo não vai regulamentar a inteligência artificial e que pretende deixá-la livre. Registros de visitantes obtidos pela AP mostram que o presidente e seus assessores receberam nos últimos meses o investidor Peter Thiel e representantes de OpenAI, Amazon, Google e Oracle.

Quem já bateu à porta de Milei

A Crusoe, desenvolvedora de data centers que participou da construção do principal campus da OpenAI no Texas, procurou autoridades argentinas neste ano para discutir investimentos apoiados pelo governo dos Estados Unidos. O projeto mais concreto, porém, é o da polonesa Green Capital: US$ 3 bilhões (cerca de R$ 16,05 bilhões) em um complexo na Patagônia, que seria alugado a grandes empresas de tecnologia para processar IA. Ainda não há cliente definido.

A região reúne terras em abundância, temperaturas amenas, ventos fortes e acesso ao gás de xisto de Vaca Muerta, que pode servir à geração de energia e ao resfriamento das instalações. Nos Estados Unidos e na Europa, comunidades contestam novos empreendimentos do tipo por causa da disputa por eletricidade.

O incentivo fiscal que Milei defende reduziria de 25% para 15% a alíquota do imposto de renda corporativo para investimentos de pelo menos US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,45 bilhões) em IA e outros setores emergentes. A proposta aguarda aprovação do Senado. Pelo desenho descrito na reportagem, as empresas não precisam reservar capacidade computacional ao mercado argentino nem divulgar quanto de água e energia vão consumir.

O tamanho do projeto em Chubut

Na província de Chubut, a Green Capital planeja ocupar 130 mil hectares arrendados de 14 proprietários rurais. Entre eles está a família do engenheiro agrônomo e criador de ovelhas Francisco Sáenz, que enxerga no empreendimento uma alternativa de renda diante do declínio da pecuária. A obra não deve começar antes de 2028.

Em operação, o campus poderia consumir em um ano cerca de 2,7 vezes a eletricidade usada por toda a cidade de Buenos Aires em 2025, de acordo com cálculo da AP. A Green Capital diz que produzirá a própria energia com turbinas eólicas, fazendas solares e geradores a gás, mas não detalhou o consumo de água nem a fatia do gás na matriz. Os estudos ambientais estão em andamento e as licenças seguem pendentes.

Em Trelew, cidade próxima ao local previsto, moradores fazem mobilizações presenciais e na internet sob o lema "Trelew Livre de Data Centers". As autoridades provinciais, por sua vez, esperam bilhões de dólares em investimento, empregos especializados e um comprador para o excedente de energia eólica.

Quem fica com o processamento

Alan Rocha Varsanyi, do grupo Observatorio Petrolero Sur, avalia que a capacidade será destinada principalmente à demanda internacional das empresas contratantes, e não ao desenvolvimento tecnológico local. Nicolás Wolovick, professor de ciência da computação da Universidade Nacional de Córdoba, teme que a ausência de regras faça do país um laboratório para tecnologias que não seriam testadas em mercados mais regulados. A falta de regulamentação também preocupa especialistas pelo risco de vigilância em massa e de ataques cibernéticos.

No Congresso, a oposição já mostrou que pode frear parte da agenda: conseguiu modificar uma proposta de flexibilização das regras de propriedade de terras por estrangeiros e bloqueou o plano de Milei para permitir que agentes de IA controlem empresas. A reportagem não informa data de votação do corte de imposto no Senado nem traz resposta do governo argentino ou das empresas citadas.

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Repórter de Tecnologia e Inteligência Artificial do Real Nacional. Cobre inteligência artificial, infraestrutura digital, regulação de tecnologia e as empresas que constroem a IA no Brasil. Mais textos · Expediente · Política editorial

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