Investidores de Wall Street estão comprando proteção contra uma eventual reversão da alta das ações de inteligência artificial, segundo reportagem do Wall Street Journal repercutida neste domingo (1º) pelo Olhar Digital. O sinal mais claro está no mercado de crédito: o custo dos contratos de proteção contra calote (CDS) de Amazon, Alphabet, Microsoft, Meta e Oracle subiu no último mês e chegou ao maior nível desde 2021, de acordo com a provedora de dados Solve.
O seguro das big techs ficou mais caro
O caso mais forte é o da Oracle, cujos spreads de CDS avançaram mais de um ponto percentual. Eugene Grinberg, cofundador da Solve, afirmou que nenhuma das cinco empresas escapou da alta, o que, na leitura dele, indica uma preocupação do mercado com o setor como um todo, e não com problemas de crédito de uma companhia específica.
O movimento vem depois de uma sexta-feira ruim. O Nasdaq caiu 2,9% no dia 30 de outubro e fechou o pior mês desde março de 2025. Alphabet e Intel tiveram algumas das maiores quedas diárias de sua história recente, e a volatilidade atingiu fabricantes de chips, gigantes de tecnologia e operadoras de infraestrutura computacional.
CoreWeave concentra a procura por opções de venda
Entre as ações, a CoreWeave, que aluga capacidade computacional para IA e depende de grandes volumes de financiamento, virou o alvo principal da proteção. Segundo a Cboe Global Markets, o volume de contratos de opções ligados à empresa bateu recorde em outubro e seguiu elevado. Entre as apostas mais populares estão opções de venda com vencimento em 2028 que dão retorno se o papel cair para US$ 35. Na semana passada, a ação era negociada perto de US$ 55.
Stephen Solaka, vice-presidente sênior da Gateway Investment Advisers, disse ao Wall Street Journal que vê demanda forte de clientes que querem se resguardar de perdas. Dave Olsen, presidente da Jump Trading, comparou a situação a ter seguro residencial: não é preciso achar que a casa vai pegar fogo para querer proteção.
Até o preço do aluguel de chips ganha proteção
A Jump Trading criou recentemente uma mesa dedicada ao mercado de poder computacional, que explora diferenças de preço entre fornecedores e monta contratos negociados diretamente entre as partes. Um exemplo dado na reportagem: uma empresa que aluga chips da Nvidia poderia comprar uma opção de venda para se proteger de uma queda no preço do aluguel. A Jump poderia assumir o outro lado ou liquidar em dinheiro.
O aluguel dos chips B300, da Nvidia, subiu cerca de 56% neste ano e chegou a US$ 7,56 por hora, segundo índice da Silicon Data. Na operação hipotética descrita, a Jump compraria capacidade se o preço caísse a US$ 4 por hora. A Susquehanna International Group também recebeu consultas de data centers e empresas de infraestrutura de IA interessadas em travar a exposição ao preço de semicondutores.
Nick Volbi, da Susquehanna, afirmou que esse tipo de seguro pode ajudar essas empresas a negociar empréstimos, porque o banco passa a ter uma garantia contra a queda nos preços da capacidade computacional. A plataforma Kalshi, por sua vez, já lista contratos sobre quais estados americanos, como New Hampshire, Michigan e Maine, podem suspender novos data centers antes de 2028, ainda com negociação pequena.
O que a corrida por proteção indica
A reportagem ressalva que as estratégias de proteção continuam pequenas diante do volume total investido em IA. Quem compra seguro, portanto, ainda não está apostando contra o setor: está pagando para limitar perdas em empresas que dependem de dívida e de preços de chips que podem cair.
Para o leitor brasileiro, o efeito prático passa pelo crédito e pelo investimento. O encarecimento do seguro das big techs sugere que o financiamento de data centers pode ficar mais caro, e isso importa para projetos de nuvem e de IA que dependem de capital externo. Já a oscilação do Nasdaq alcança fundos e carteiras com exposição a ações americanas de tecnologia.



