A bolsa brasileira perdeu mais de R$ 51 bilhões em capital estrangeiro entre 15 de abril e o fim de agosto, período em que investidores globais retomaram a aposta em ações de inteligência artificial nos Estados Unidos. Os números são do analista de ações João Zanott, da EQI Investimentos, em entrevista à Exame.
Segundo Zanott, o Brasil hoje funciona como espelho invertido da corrida por inteligência artificial. Quando a tese perde força lá fora, o capital estrangeiro migra para ações de valor na B3. Quando a IA volta a aquecer, esse dinheiro é puxado de volta para os Estados Unidos, disse o analista da EQI.
O investidor colocou todos os ovos na cesta da IA outra vez, disse João Zanott, analista de ações da EQI Investimentos.
Entre 1º de janeiro e 14 de abril, os estrangeiros haviam injetado cerca de R$ 69 bilhões na B3, período em que o Ibovespa chegou à máxima de 198 mil pontos. A partir de 15 de abril, o fluxo virou negativo: mais de R$ 51 bilhões saíram até o fim de agosto, com o mês concentrando parte da pressão, incluindo uma saída superior a R$ 4 bilhões em um único pregão. Ainda assim, o saldo acumulado do ano até 26 de agosto seguia positivo em cerca de R$ 17,7 bilhões, segundo os números citados pelo analista.
A distância entre small caps e Ibovespa
O estrategista em ações da EQI João Neves disse que o mercado atravessa uma inversão rara desde a criação dos índices: o Ibovespa sobe, enquanto o índice Small Caps acumula perdas desde dezembro de 2023. Historicamente, as ações menores negociam com prêmio em relação ao índice principal da bolsa. Hoje ocorre o contrário, quadro que Neves atribui à falta de compradores estrangeiros e à migração do investidor local para a renda fixa, onde o CDI paga dois dígitos ao ano.
Como separar quem resiste da fuga de capital
Para Zanott, o nível de endividamento é o primeiro filtro na escolha de ações de empresas menores durante a queda das small caps. No varejo, uma alavancagem de uma vez e meia a duas vezes o Ebitda já liga o sinal amarelo. Em infraestrutura ou utilities com receita contratada, até três vezes o Ebitda ainda é considerado confortável. O analista dá preferência a companhias com caixa líquido positivo.
Um dos exemplos citados por Zanott é a Vulcabras, fabricante de calçados esportivos que soma 20 trimestres seguidos de crescimento, paga dividendos e tem dívida líquida de 0,5 vez o Ebitda. Mesmo com esses números, a ação negocia a cerca de sete vezes o lucro, o que o analista atribui à falta de liquidez provocada pela ausência de compradores estrangeiros.
O gatilho que pode trazer o dinheiro de volta para a B3
A recuperação das small caps depende quase inteiramente do investidor brasileiro, mais do que do capital estrangeiro, segundo Neves. O principal gatilho seria a queda dos juros, que tornaria o CDI menos atrativo diante da bolsa. O estrategista afirmou que cerca de R$ 15 trilhões estão hoje aplicados em CDI e que uma migração de apenas 1% ao ano para a renda variável já bastaria para movimentar bilhões de reais na direção das ações menores.
Enquanto os juros não caem o suficiente para tirar recursos da renda fixa, a EQI recomenda que o investidor priorize empresas com balanço mais limpo e menor dependência de capital estrangeiro, ainda que isso implique deixar de lado, por ora, ações mais baratas em múltiplos, como a Vulcabras.



