O presidente Lula (PT) começará o novo mandato diante de um Congresso em que partidos de direita e centro-direita somarão 292 dos 513 deputados (56,9%) e 51 dos 81 senadores (63%), segundo estudo da ARX Investimentos divulgado neste domingo (1º) pela Exame. O PL, de Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula no segundo turno, terá as maiores bancadas das duas Casas: 121 deputados e 29 senadores.
O levantamento, intitulado "Presidencialismo de Coalizão: o novo Congresso e a formação de maiorias", foi assinado por Gabriel Barros, Cléo Olimpio, Matheus Caliano e Eric Fernandes. Os autores partiram da distribuição de cadeiras por partido após as eleições, da classificação ideológica de cada bancada e do número de votos exigido para aprovar cada tipo de proposta.
Como ficam as bancadas na Câmara e no Senado
Na Câmara, a divisão da ARX é a seguinte: 95 deputados de esquerda, 31 de centro-esquerda, 95 de centro, 155 de centro-direita e 137 de direita. Somados, esquerda, centro-esquerda e centro chegam a 221, abaixo dos 257 necessários para a maioria absoluta. No Senado, os três campos reunidos têm 30 votos, contra 41 da maioria absoluta.
O PT elegeu 70 deputados e deve ter 10 senadores, conforme atualização divulgada pelo Senado. Com PCdoB e PV, a Federação Brasil da Esperança terá 88 cadeiras na Câmara (17,2%). Depois do PL, as maiores bancadas são União Brasil (46), PSD (43), Republicanos (41) e PP (41).
O que a conta diz sobre emendas constitucionais
Uma PEC precisa de 308 votos na Câmara, em dois turnos. Os 292 deputados de direita e centro-direita ficam 16 votos abaixo disso se atuarem sozinhos. No Senado, os 51 parlamentares dos dois campos superam o quórum de 49 votos. A ARX ressalva que o cálculo supõe alinhamento total de cada bloco e que a classificação ideológica é dos próprios autores, não uma medida de como cada parlamentar vota.
O estudo também mede a concentração de forças. O número efetivo de bancadas e federações na Câmara caiu de 7,78, em 2022, para 7,25. No Senado, o indicador passou de 8,21 para 5,74, e a maior bancada subiu de 19,8% para 35,8% das cadeiras. Os três maiores blocos da Casa agora têm 56,8% dos assentos, contra 48,1% antes.
Nordeste e MDB pesam mais que o rótulo ideológico
A ARX lembra que o Nordeste concentra parte relevante dos deputados de centro e centro-direita. Na Câmara, a região responde por 66,7% da bancada do PSB, 41,9% da do PSD, 36,6% da do PP, 36,1% da do MDB e 34,8% da do União Brasil. No MDB, 17 diretórios estaduais apoiaram Flávio no segundo turno, mas dez outros, no Norte e no Nordeste, declararam voto em Lula, entre eles Bahia, Pernambuco, Ceará, Alagoas e Maranhão. A posição eleitoral do diretório, observa o estudo, não define sozinha como os deputados votarão no governo.
O que o economista da ARX espera do governo
Para Gabriel Barros, economista-chefe da ARX, a nova composição torna a relação entre Executivo e Legislativo mais complexa, sobretudo nos temas econômicos, e ela tende a ser tensa por causa de inconsistências já conhecidas na agenda do governo. Ele também apontou risco de fisiologismo, com apoio trocado por cargos, verbas ou benefícios, e disse que a ausência de Flávio Bolsonaro do país não impediria a oposição de se organizar, mas poderia deixar as negociações menos fluidas.
Na prática, o governo terá de montar maioria bancada a bancada, e não por afinidade de campo. Propostas que exigem quórum qualificado, como emendas constitucionais, dependerão de deputados de centro e centro-direita que hoje não pertencem à base governista, e a negociação passará por partidos como PSD, PP, MDB e União Brasil.



