Johor, no sul da Malásia, reúne 65 projetos de data centers em operação, em construção ou em diferentes fases de aprovação, e virou ponto de encontro das big techs americanas e chinesas na corrida pela inteligência artificial. Os dados constam de reportagem do The New York Times republicada pelo InfoMoney em 2 de novembro.
As instalações já consomem mais de 2 gigawatts de eletricidade, o suficiente para abastecer mais de um terço das residências do país, que tem 35 milhões de habitantes. Se todos os projetos planejados forem concluídos, a demanda pode superar 10 gigawatts, de acordo com a agência estadual Invest Johor.
Por que Johor atrai os dois lados
O movimento começou por volta de 2021, quando Singapura proibiu novos data centers por restrições de energia. As empresas passaram a buscar terreno do outro lado da fronteira, em áreas antes ocupadas por plantações de óleo de palma e abacaxi. Terra barata, energia relativamente acessível e proximidade com os cabos submarinos que ligam a China ao resto do mundo completam o apelo.
As chinesas chegaram primeiro. A DayOne, que era a subsidiária internacional da GDS Holdings, anunciou sua primeira instalação em Johor em 2021 e hoje é uma das maiores desenvolvedoras do país. Captou bilhões de dólares com investidores como a americana Coatue Management e o japonês SoftBank, e anunciou planos de abrir capital. Segundo analistas ouvidos pelo jornal, a ByteDance, dona do TikTok, é sua principal cliente. Em documento a investidores, a DayOne informou que um cliente não identificado, operador de um serviço de vídeos curtos, respondeu por quase 70% da receita no primeiro semestre de 2026.
Microsoft, Google e Oracle também investem pesado na Malásia para ficar perto de clientes asiáticos. Em alguns parques industriais, a infraestrutura de empresas americanas e chinesas é construída quase lado a lado. Lee Ting Han, integrante do governo de Johor envolvido nas aprovações, atribuiu o papel da região à posição neutra e não alinhada do país.
A brecha nos controles de exportação
Em 2022, o governo americano impediu a Nvidia de vender diretamente à China seus chips mais avançados. As regras, porém, geralmente não barram empresas chinesas de usar os mesmos chips em data centers fora do território chinês. Jimmy Goodrich, pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego, afirmou que nada disso é ilegal e que a lacuna nos controles segue sem correção.
Um relatório que circulou dentro do governo dos EUA identificou participação chinesa, direta ou indireta, em 38 dos 128 projetos de data centers existentes no Sudeste Asiático. O estudo estimou que a capacidade de processamento disponível para empresas chinesas em cinco países da região (Malásia, Tailândia, Vietnã, Indonésia e Singapura) é quase tão relevante quanto a da China continental. Em julho, o assessor de IA da Casa Branca, Michael Kratsios, acusou a Moonshot de usar chips avançados em data centers na Tailândia para treinar modelos. O NYT também informou que um executivo da Megaspeed, empresa baseada em Singapura com operações na Malásia, é investigado por suspeita de desviar chips da Nvidia para a China.
O que a Malásia e os investidores enfrentam agora
Autoridades malaias passaram a questionar o ritmo da expansão por causa do consumo de água e de eletricidade. O governo adotou o que alguns chamam de moratória informal: só ganham aprovação instalações com fornecimento próprio de energia e fontes independentes de água para resfriamento, uma exigência difícil de cumprir. Dezenas de projetos já autorizados, no entanto, seguem em obra.
O risco também chegou aos balanços. A DayOne alertou investidores neste mês que novas restrições americanas ao acesso remoto a poder computacional por meio de países como a Malásia podem reduzir a demanda e afetar seus resultados. Se Washington fechar essa brecha, o negócio que sustenta parte do boom em Johor perde um de seus principais clientes.



