segunda-feira, 2 de novembro de 2026 · Edição diária

Inteligência artificial · Política · Poder econômico

USP testa realidade virtual e IA para detectar declínio cognitivo em sessão única e promete abrir o código

Pesquisadores do ICMC-USP combinam eletroencefalograma, rastreamento do olhar e IA para identificar o comprometimento cognitivo leve, que atinge de 15% a 20% dos brasileiros acima de 65 anos, segundo o estudo.

Idoso usando óculos de realidade virtual em avaliação cognitiva
Projeto do ICMC-USP busca sinais precoces de declínio cognitivo para apoiar a avaliação médica. Foto: Pexels / Mikhail Nilov

Pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, desenvolvem uma plataforma que reúne realidade virtual, inteligência artificial e leitura da atividade cerebral para identificar o comprometimento cognitivo leve (CCL) em idosos. A Agência Fapesp divulgou o trabalho em 23 de outubro, e o Poder360 o republicou nesta segunda-feira (2). O CCL é o estágio intermediário entre o declínio natural do envelhecimento e o início de quadros demenciais.

Segundo a pesquisa, de 15% a 20% das pessoas com mais de 65 anos têm CCL, e metade desse grupo pode evoluir para demência, como a doença de Alzheimer, em até cinco anos. Detectar essa transição cedo é o objetivo do pós-doutorado de Roberto Douglas Guimarães de Aquino, supervisionado por Alexandre Delbem, professor do ICMC e coordenador do Centro para Inteligência Artificial em Gestão de Saúde (ciaGsaúde), um Centro de Pesquisa Aplicada financiado pela Fapesp.

Uma sessão, três fontes de dados

Hoje, a triagem depende de exames de papel e caneta, como o Miniexame do Estado Mental e o Montreal Cognitive Assessment (MoCA). Aquino afirma que esses testes sofrem influência de fatores socioculturais e de escolaridade, dependem de interpretação subjetiva e têm sensibilidade reduzida para as formas mais iniciais de comprometimento.

No protocolo do ICMC, o paciente passa por uma única sessão. Em ambiente de realidade virtual, ele executa tarefas que simulam atividades rotineiras. Durante a tarefa, um eletroencefalograma registra as ondas cerebrais e um rastreador acompanha o movimento dos olhos. Segundo os pesquisadores, o tempo de fixação do olhar indica como a atenção é distribuída, e as oscilações das ondas cerebrais apontam o esforço da memória operacional.

Os dados alimentam modelos de aprendizado de máquina e redes neurais profundas, que cruzam as informações e buscam padrões estatísticos ligados ao declínio precoce. Aquino chama o resultado de biomarcadores digitais preditivos.

Um algoritmo que explica a resposta

A arquitetura foi desenhada com modelos interpretáveis. De acordo com Aquino, o sistema não entrega só uma resposta automática sobre haver ou não comprometimento: gera um relatório com o motivo, para apoiar a decisão do neurologista. A escolha responde a uma crítica comum à IA em saúde, a de que médicos não conseguem auditar o que o modelo calculou.

O estudo envolve grupos clínicos e voluntários saudáveis, pareados por idade e escolaridade, com dados guardados em bancos seguros e sem identificação dos participantes. A pesquisa tem também a parceria do Centro de Engenharia Aplicada à Saúde, sediado na Escola de Engenharia de São Carlos da USP.

Código aberto só depois da validação clínica

A tecnologia ainda está em fase de pesquisa e não é um exame disponível na rede de saúde. Delbem afirmou que, ao fim das validações clínicas, o software de análise, os algoritmos e os conjuntos de dados anonimizados serão publicados em código aberto no GitHub, para que outros grupos repliquem a metodologia.

Se os resultados se confirmarem, a ferramenta pode reduzir a dependência de testes aplicados com papel e caneta, e Delbem cita ainda o uso futuro para orientar terapias personalizadas de neurorreabilitação, cognitivas e motoras. Para hospitais e planos de saúde, o ganho potencial está em identificar mais cedo quem precisa de acompanhamento. As fontes consultadas não trazem prazo para a validação nem estimativa de custo da sessão.

AD

Repórter de Tecnologia e Inteligência Artificial do Real Nacional. Cobre inteligência artificial, infraestrutura digital, regulação de tecnologia e as empresas que constroem a IA no Brasil. Mais textos · Expediente · Política editorial

Leia também

O essencial de IA e poder no Brasil, toda manhã.

Uma leitura de 4 minutos com o que move Brasília, o mercado e a corrida da inteligência artificial. Sem ruído.