Analistas e estrategistas ouvidos pela Reuters afirmam que uma vitória forte dos democratas nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos beneficiaria ações de energia limpa, habitação e saúde, e traria mais escrutínio para inteligência artificial, centros de dados e defesa. A reportagem foi publicada nesta segunda-feira (2), um dia antes da votação, e republicada pelo InfoMoney.
Segundo a Polymarket, plataforma de apostas sobre eventos, a chance de uma vitória esmagadora dos democratas era de 72%. A probabilidade de o partido levar a Câmara enquanto os republicanos mantêm o Senado era de 23%, e a de os republicanos segurarem as duas Casas, de 6%. A pesquisa Reuters/Ipsos mostra a aprovação do presidente Donald Trump no menor nível do mandato, com os eleitores preocupados com o custo de vida e com a guerra com o Irã.
Onde a IA fica mais exposta
Os analistas esperam que uma maioria democrata traga mais fiscalização sobre a IA. As empresas de armazenamento de dados e memória são as mais citadas: Micron Technology, Sandisk e Seagate, que acumulam alta neste ano. Uma desaceleração nos gastos com IA e centros de dados também pesaria sobre fabricantes de equipamentos para chips, fornecedores de energia e construtoras desse tipo de instalação.
Os democratas teriam, além disso, mais disposição para usar poderes de intimação e obrigar executivos de tecnologia a depor sob juramento ou entregar registros sobre comportamentos prejudiciais de agentes de IA. Eleitores de pelo menos 10 estados também poderiam votar propostas que imponham restrições, exigências de licenciamento ou suspensões à construção de data centers.
O Société Générale tem leitura menos pessimista. Para o banco, o setor de IA deve ficar praticamente intacto, porque os democratas dificilmente terão votos para derrubar um veto de Trump e as principais agências federais continuam sob controle republicano.
Energia limpa, casas e saúde
Em energia limpa, um bom resultado democrata reforçaria a expectativa de que o apoio federal ao setor continue. A reportagem cita First Solar, Sunrun, Enphase Energy e NextEra Energy. O UBS espera, num governo dividido, espaço para legislação bipartidária que acelere aprovações de energia e infraestrutura, com apoio dos dois lados à energia nuclear. Ford, General Motors e Stellantis, que reduziram planos de carros elétricos e defenderam regras mais flexíveis, poderiam sofrer pressão.
Nas construtoras, o UBS afirma que o governo Trump seguiria aplicando a lei aprovada no fim de junho para ampliar a oferta de casas unifamiliares a preços acessíveis. Com as duas Casas, os democratas poderiam incluir restrições a grandes proprietários institucionais, mas Trump ainda poderia vetar. O índice imobiliário PHLX recua quase 5% no ano, pressionado por juros e taxas de hipoteca mais altos.
A saúde tem perspectiva mista. O setor de saúde do S&P 500 sobe mais de 19% no ano, em níveis recordes, atrás apenas do de energia. Mais escrutínio sobre Medicaid e Medicare Advantage poderia pesar sobre as seguradoras, embora a TD Cowen veja risco limitado de uma reforma ampla. Magdalena Ocampo, da Principal Asset Management, disse que uma vitória esmagadora daria impulso a medidas sobre custos de saúde, taxas ao consumidor e preços de remédios.
Defesa, bancos e cripto na conta
As ações de defesa subiram em janeiro, quando Trump propôs um orçamento militar de US$ 1,5 trilhão, contra os US$ 901 bilhões aprovados, e perderam a maior parte do ganho desde então. Não deve haver votação do orçamento antes de 2027, e uma Câmara democrata poderia recolocar os gastos sob exame. Com a guerra com o Irã sem fim à vista, RTX e Northrop Grumman mantêm carteiras de pedidos recordes.
No setor financeiro, o Morgan Stanley avalia que mais fiscalização poderia atrasar a flexibilização regulatória, mas dificilmente a impediria. O Barclays diz que um Partido Republicano forte favoreceria clareza regulatória e fusões e aquisições, fatores importantes para o lucro dos grandes bancos. Em cripto, o efeito sobre preços deve ser pequeno, mas um Senado democrata dificultaria a retomada da Lei da Claridade, que travou em setembro, e democratas preparam investigações sobre empresas ligadas a Trump e à família dele.
O que o investidor brasileiro acompanha
Para quem tem BDRs ou fundos com exposição a Wall Street, a leitura dos analistas é que a eleição pode redistribuir fluxo entre setores já na quarta-feira, mesmo sem mudar a lei de imediato. Um Congresso dividido dá aos democratas controle sobre investigações e financiamentos, mas qualquer projeto ainda depende de Trump não vetar. A reportagem não trata de efeitos sobre o mercado brasileiro.



