A Endeavor Brasil apresentou nesta quinta-feira (27) uma pesquisa que ouviu 133 empreendedores de 125 scale-ups entre junho e julho de 2026 para o estudo Inteligência Artificial nas Scale-Ups Brasileiras, realizado com apoio de Salesforce e Onfly. O levantamento aponta um contraste: 84% das empresas pretendem ampliar o investimento em inteligência artificial no próximo ano, mas 51% delas ainda não medem se a tecnologia melhora o resultado do negócio, disse a CMO da Endeavor, Daniella Mello, em entrevista à Exame.
A pesquisa incluiu ainda 90 mentorias e 10 entrevistas em profundidade com fundadores. Segundo o levantamento, 16% das scale-ups já nasceram com a inteligência artificial no centro do negócio, e 34% reposicionaram produtos para levar a tecnologia ao núcleo da operação. Outras 42% usam ferramentas de IA com ganhos comprovados, sem que a tecnologia se torne o eixo central da estratégia.
A adoção da tecnologia também alterou a estrutura interna das empresas. De acordo com o estudo, 70% das scale-ups reorganizaram áreas ou times por causa da inteligência artificial, e 63% afirmam usar a tecnologia de forma intensa, da liderança até a operação de base.
O índice que classifica as scale-ups como 'em desenvolvimento'
A Endeavor calculou um Índice de Percepção de Adoção de 6,0 pontos, em uma escala de 10, que classifica o conjunto das scale-ups entrevistadas no estágio 'em desenvolvimento'. O corte por intensidade de investimento mostra a distância entre discurso e resultado: entre as empresas que destinam mais de 20% da receita à inteligência artificial, 62% percebem aumento de faturamento atribuído à tecnologia. Entre as que investem menos de 1% da receita, apenas 9% relatam o mesmo ganho.
Para Daniella Mello, CMO da Endeavor Brasil, o critério que passa a definir a adoção de inteligência artificial é o grau de dependência real do negócio em relação à tecnologia. Em entrevista à Exame, ela disse:
O risco batizado de uso de IA pela IA
A executiva da Endeavor citou o que chama de uso de IA pela IA, quando a empresa adota a tecnologia e cria incentivos ineficientes, desconectados do problema de negócio original. Esse tipo de aplicação alimenta o que o mercado batizou de AI-washing, o anúncio do uso de inteligência artificial sem comprovação de resultado. Entre os obstáculos apontados pelos empreendedores entrevistados estão a falta de integração de dados, citada por 30%, a escassez de talento qualificado, apontada por 29%, a qualidade das respostas geradas pelas ferramentas, mencionada por 25%, e a segurança da informação, citada por 23%.
Quem banca o investimento sem retorno comprovado
Com 84% das scale-ups planejando ampliar o orçamento de inteligência artificial em 2027 e metade delas ainda sem métrica de resultado, o capital que sustenta esse investimento vem majoritariamente de fundadores e dos próprios investidores das empresas. Uma scale-up que aumenta o gasto em ferramentas de IA sem medir o retorno corre o risco de comprometer caixa em um momento de captação mais seletiva. A orientação da Endeavor aos empreendedores, segundo o estudo, é usar a inteligência artificial como meio para resolver um problema de negócio concreto, e evitar transformá-la em objetivo da estratégia.




