Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da consultoria de risco político Eurasia Group, disse em entrevista à Exame publicada nesta segunda-feira (2) que a popularidade de Lula deve começar o quarto mandato em torno de 50% e pode cair abaixo de 40% ao longo de 2027. A avaliação vem logo após a reeleição do petista no segundo turno.
Garman afirmou que a lua de mel do presidente será curta. Para ele, o problema de Lula não está no ponto de partida, mas na trajetória. O executivo diz que o voto do primeiro turno expressou uma sensação de estagnação da classe média, com pessimismo sobre o futuro e preocupação com segurança e corrupção. Esse humor, afirma, não desaparece com o resultado da urna.
Os números por trás da aposta
Segundo o executivo, a aprovação de Lula era de 45% antes da campanha e subiu para algo entre 46% e 47% no segundo turno. Garman citou uma base com cerca de 500 eleições dos últimos 40 anos, na qual governos com 45% de aprovação venceram em mais de 70% dos casos. Disse ainda que nenhum líder latino-americano perdeu a reeleição com esse nível de apoio.
A projeção para o ano que vem é mais dura. Se tivesse de apostar, disse Garman, Lula começa 2027 com pouco mais de 50% e pode ficar abaixo de 40% durante o ano. Ele atribui a queda esperada à desaceleração da economia, aos juros altos e à ausência de estímulo fiscal ou de crédito.
A Eurasia também errou parte da leitura da disputa. A consultoria deu primeiro 80% de chance de vitória a Flávio Bolsonaro e depois reduziu para 60%. Garman reconheceu que a firma não calibrou o tamanho da virada a favor de Lula. Ele ligou o movimento ao desgaste da crise no STF e do caso Banco Master, que pesaram sobre o governo no primeiro turno e perderam espaço no debate no segundo.
Um Congresso que dificulta a pauta de impostos
Garman prevê um Legislativo mais conservador, que dificultará a aprovação de aumento de carga tributária e poderá impor derrotas ao Planalto. Davi Alcolumbre, segundo ele, parece favorito para ser reconduzido à presidência do Senado, e Hugo Motta, à da Câmara. Se Alcolumbre não for reeleito, diz o analista, Tereza Cristina ganharia mais peso na disputa.
Sobre a mobilização de rua e de redes que marcou o segundo turno, Garman avalia que o governo tentará usá-la como pressão sobre os parlamentares. Ele vê limite nessa estratégia: a mobilização, diz, foi movida sobretudo pelo medo de uma presidência de Flávio Bolsonaro e tende a perder força sem essa ameaça. Afirma também que um sinal de correção de rumo fiscal logo no início do governo seria importante.
Impeachment e o futuro do bolsonarismo
O diretor da Eurasia chamou de muito difícil um processo de impeachment e disse que ele exigiria uma economia pior do que a hoje projetada. Segundo Garman, as condições políticas para isso costumam surgir quando a aprovação cai abaixo de 20%, patamar distante das estimativas que ele apresentou.
Do lado da oposição, Garman afirmou que Jair Bolsonaro permanece preso e que os dois filhos estão exilados nos Estados Unidos. Ele citou Michelle Bolsonaro como possível nome futuro. Para o analista, o bolsonarismo não vai embora tão cedo, mas a eleição marca um ponto de inflexão e deve reduzir a dominância da família na direita. Atribuiu a derrota de Flávio em parte às vulnerabilidades pessoais do candidato e ao histórico dele como senador, explorados por Lula no segundo turno.



