O influenciador Paulo Figueiredo, que atua como porta-voz não oficial da família Bolsonaro nos Estados Unidos, atribuiu ao ChatGPT o trecho em que o senador Flávio Bolsonaro (PL) se declarava presidente eleito do Brasil, segundo reportagem da Reuters publicada pelo Money Times nesta sexta-feira (30). A explicação, dada na quinta-feira (29), é um fato novo em relação ao que já se sabia: o recuo de Flávio, que trocou o termo por "líder do Brasil", ganhou uma justificativa tecnológica que ninguém além de Figueiredo confirmou.
Flávio publicou a carta com a expressão "presidente eleito do Brasil". Cerca de uma hora depois, apagou a versão e colocou outra no lugar, com "líder do Brasil". Figueiredo foi o primeiro a enviar o texto a jornalistas.
O que Figueiredo diz que o ChatGPT fez
De acordo com Figueiredo, a carta passou por várias versões preliminares e recebeu contribuições de diferentes pessoas. Ele afirmou que Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio e ex-deputado, usou o ChatGPT para finalizar o documento. Nesse passo, o chatbot teria incluído uma versão anterior do texto, escreveu Figueiredo na rede X.
A ferramenta também teria inserido uma versão desatualizada do brasão nacional, com o nome do país grafado com "Z". Os erros só teriam sido percebidos depois que a carta já estava com a imprensa. Figueiredo disse que o grupo achou a troca do brasão muito engraçada.
Sobre a mudança de "presidente eleito" para "líder", ele afirmou que Flávio optou pelo segundo termo por razões jurídicas e morais, e que os envolvidos trataram o ajuste como algo sem importância. A OpenAI e a assessoria do senador não responderam aos pedidos de comentário da Reuters.
O que a explicação não resolve
A reportagem não traz verificação independente do papel do ChatGPT. A versão depende inteiramente da palavra de Figueiredo, e não há registro público do histórico de conversas com a ferramenta. Um erro de brasão, o que a IA teria feito segundo o relato, não explica por que um texto que se apresenta como "presidente eleito" circulava entre os redatores.
O contexto político pesa sobre essa explicação. Flávio perdeu o segundo turno para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por mais de 4 milhões de votos e declarou, sem apresentar provas, que a eleição teve fraudes. A vitória de Lula foi reconhecida pelo Tribunal Superior Eleitoral, por líderes estrangeiros, por observadores internacionais e pelo próprio PL. Figueiredo disse que Flávio não reconhece o resultado e seguirá lutando para restaurar a democracia no país.
Um senador cada vez mais isolado
Flávio chegou a Miami na quarta-feira (28), depois de deixar o Brasil. Antes disso, havia se recusado a cumprir uma ordem do Supremo Tribunal Federal para entregar os passaportes, no âmbito de uma investigação sobre suposta lavagem de dinheiro, que ele nega.
Segundo a Reuters, a posição do senador não recebeu apoio de figuras importantes do próprio campo político. Na prática, o episódio da carta deixa Flávio sem aliados que endossem a tese de fraude e com uma justificativa que, por ora, só um interlocutor sustenta. Quem avalia se a carta configura algum ilícito é a Justiça, e não o chatbot citado como autor do erro.



