Executivos da Caixa e do Itaú Unibanco debateram, em painel do Febraban Tech 2026 dedicado à governança de agentes de inteligência artificial, até que ponto os bancos aceitam delegar decisões a sistemas autônomos, segundo reportagem do Convergência Digital publicada nesta sexta-feira (28). O painel "Quem controla os agentes? Riscos, governança e ética em ambientes de múltiplos agentes" reuniu representantes de bancos, do setor de tecnologia e da academia.
Sandoval César de Oliveira Mendonça, superintendente de arquitetura de TI da Caixa, disse que a diferença entre um sistema tradicional e um agente de IA está na previsibilidade. "No sistema tradicional, quando você programa, é possível reproduzir o mesmo comportamento", afirmou. Essa garantia, segundo ele, desaparece quando o agente ganha autonomia para agir sozinho, e é isso que hoje limita quais tarefas a Caixa delega a esses sistemas.
Mendonça defendeu também restrições ao acesso dos agentes aos sistemas internos do banco. "As APIs continuarão existindo, mas o agente não pode ter autonomia para acessar todas as APIs dentro do banco. Do mesmo modo que identificamos pessoas, teremos que identificar agentes", disse.
O time de 90 pesquisadores do Itaú
No Itaú Unibanco, a resposta ao mesmo risco seguiu outro caminho, o de investir em pessoal dedicado ao tema. Roberto Frossard, head de emerging tech do banco, disse que a instituição montou um centro de pesquisa com cerca de 90 pesquisadores internos e reúne outros 200 profissionais, brasileiros e estrangeiros, que atuam com agentes de IA.
Mesmo com a estrutura montada, Frossard disse que o banco ainda não sabe como vai lidar com falhas cometidas por sistemas autônomos.
Quem responde pelo erro do agente
A dúvida sobre responsabilidade apareceu também na fala de Juliano Maranhão, professor da Faculdade de Direito da USP. Segundo ele, atribuir culpa a uma máquina esbarra em um princípio do próprio Direito, que associa a responsabilização à intencionalidade, um traço humano.
Neli Freitas, presidente da Risck Women, disse que a autonomia dada a um agente precisa ser definida caso a caso por cada empresa. "Autonomia de agentes não é um interruptor que liga e desliga, o que exige supervisão, e o que o agente pode conduzir sozinho deve ser desenhado milimetricamente pelas corporações", afirmou. Camila Achutti, CEO e fundadora da Mastertech, disse que as regras internas de governança ainda estão em construção junto com o próprio uso da tecnologia. "Os agentes nascem das pessoas e seus desafios. Não dá para organizar a casa antes que as pessoas testem", afirmou.
O limite que ainda falta desenhar
As falas do painel mostram que Itaú e Caixa, apesar de estratégias diferentes (um aposta em equipe interna de pesquisa, o outro em restrição de acesso a sistemas), esbarram no mesmo limite: nenhum dos dois bancos está disposto, por ora, a deixar um agente de IA tomar sozinho uma decisão que não possa ser desfeita. Isso restringe o tipo de tarefa que essas ferramentas assumem hoje dentro das instituições, mesmo com o investimento em equipes dedicadas ao tema.
Para o cliente, o efeito prático aparece na velocidade com que a IA passa a decidir sobre questões sensíveis, como aprovação de crédito ou movimentação de valores. Enquanto bancos e especialistas em Direito não definirem quem responde por uma falha cometida por um agente, esse tipo de decisão deve seguir passando por supervisão humana antes de ser executada.



