A secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, disse em entrevista ao jornal O Globo que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, busca influenciar processos democráticos pelo mundo, incluindo o Brasil. A entrevista, publicada nesta sexta-feira, cita a aproximação entre o bolsonarismo e a administração americana como um dos sinais dessa disputa às vésperas das eleições presidenciais de outubro. Callamard é a principal porta-voz da organização, que atua na defesa de direitos humanos em diferentes países e acompanha de perto a conjuntura brasileira.
Callamard afirmou existir uma aliança de líderes autoritários com grandes empresas de tecnologia, que ela chama de ataque aos princípios básicos da democracia. A avaliação da ativista francesa chega num momento em que plataformas digitais como Meta, Google e X concentram parte relevante da comunicação política no Brasil, num ano em que o país elege presidente, governadores e o Congresso Nacional.
As restrições herdadas do governo Bolsonaro
Segundo Callamard, o governo de Jair Bolsonaro, que ocupou a Presidência entre 2019 e 2022, adotou leis e políticas com o objetivo de restringir a liberdade e os direitos humanos da população brasileira. Ela citou, em especial, medidas que limitaram a liberdade de expressão durante o período, sem detalhar quais normas específicas teriam produzido esse efeito.
A secretária-geral reconheceu avanços no governo Lula, que assumiu a Presidência em 2023, na comparação com a gestão anterior. Ela mencionou a retomada de políticas de memória, reparação histórica e meio ambiente como pontos positivos, mas disse que o esforço do governo ficou aquém do necessário e que Lula deveria ter feito mais no campo social.
Como exemplo da contradição que aponta na atual gestão, Callamard citou o fato de o Brasil ter sediado a COP30, conferência do clima voltada à redução do uso de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que autorizou a perfuração de poços de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas.
A crítica às respostas militarizadas à violência
A ativista rejeitou soluções militarizadas para o combate à violência urbana e citou o modelo adotado em El Salvador como exemplo de política de segurança que não deveria ser copiada pelo Brasil. Para ela, as políticas de segurança pública devem colocar os direitos humanos no centro das decisões, em vez de apostar apenas no endurecimento penal e no aumento do encarceramento.
Callamard também criticou a priorização do mercado financeiro em detrimento de agendas voltadas à redução da desigualdade social, segundo o relato publicado por O Globo.
Quem fica sob pressão com o alerta
A entrevista acontece na reta final da campanha para as eleições presidenciais de outubro, período em que as mesmas plataformas citadas por Callamard concentram parte da comunicação política do país. As declarações da secretária-geral aumentam a pressão sobre essas empresas quanto ao papel que exercem na disputa e reforçam o alerta de entidades de direitos humanos sobre o uso de tecnologia por grupos alinhados a líderes autoritários no exterior.



