A ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, disse à série A Máquina, do podcast Café da Manhã da Folha de S.Paulo, publicada neste sábado (29), que o governo dos Estados Unidos bloqueou o acesso de usuários fora do país aos modelos mais avançados da Anthropic, por decisão do presidente Donald Trump. Segundo Dweck, de 49 anos, o episódio mostra o risco de depender de provedores estrangeiros de tecnologia num momento de disputa entre potências pela liderança em inteligência artificial.
Economista e professora da UFRJ, Dweck ocupou a chefia da assessoria econômica e a Secretaria de Orçamento Federal no Ministério do Planejamento entre 2011 e 2016, além de ter passado pela Casa Civil como subchefe de análise e acompanhamento de políticas governamentais.
Na entrevista, a ministra citou outro caso para justificar a preocupação do governo brasileiro: a Microsoft bloqueou o acesso ao e-mail do procurador-chefe do Tribunal Penal Internacional, Karim Khan, depois que os Estados Unidos impuseram sanções a autoridades da corte. Para Dweck, o episódio confirma por que o Brasil não pode depender só de empresas americanas para operar sistemas do Estado.
O Brasil integra a Waico, aliança de inteligência artificial liderada pela China, e não participa da Pax Silica, iniciativa rival liderada pelos Estados Unidos. Dweck disse que a entrada na aliança chinesa não representa alinhamento político a Pequim, e sim afinidade com princípios como acesso mais amplo à tecnologia, cooperação entre países e defesa de instâncias multilaterais de governança digital.
As quatro frentes da soberania digital
Segundo Dweck, a estratégia do governo se divide em quatro frentes:
- Soberania de dados: saber onde as informações do Estado estão armazenadas e garantir acesso a elas
- Soberania operacional: manter sistemas públicos funcionando mesmo sob sanções ou bloqueios externos
- Desenvolvimento tecnológico: criar capacidade nacional para produzir nuvem e inteligência artificial
- Governança e regulação: submeter plataformas digitais à jurisdição brasileira
A ministra disse que a política não pretende isolar o Brasil nem torná-lo autossuficiente em tecnologia. O objetivo, segundo ela, é garantir controle sobre dados e sistemas do Estado mesmo diante de um corte de acesso imposto por outro governo, como ocorreu nos casos da Anthropic e da Microsoft.
O investimento de R$ 2 bilhões e o prazo de dois anos
Dweck afirmou que a Serpro e a Dataprev, estatais de tecnologia ligadas ao governo federal, já investiram R$ 2 bilhões em infraestrutura física de nuvem para repatriar dados considerados estratégicos. Segundo ela, mais de 60% dos dados do governo brasileiro ainda ficam armazenados em nuvens de empresas americanas, como Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud. A ministra estimou em cerca de dois anos o prazo para que empresas brasileiras consigam oferecer serviços de nuvem em escala próxima à das gigantes americanas.
Quem banca a conta da nuvem soberana
Os R$ 2 bilhões de Serpro e Dataprev saem do caixa das próprias estatais e cobrem apenas a infraestrutura física que sustenta a nuvem do governo. Enquanto isso, a maior parte dos dados públicos segue hospedada fora do país, e o prazo de dois anos citado por Dweck recai sobre um mercado brasileiro de nuvem pequeno diante de Amazon, Microsoft e Google. Os bloqueios à Anthropic e ao e-mail de Karim Khan, citados pela ministra, tratam o atraso como risco direto à operação do Estado, e não só como uma questão de custo.



