domingo, 6 de setembro de 2026 · Edição diária

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Dweck cita bloqueio de Trump à Anthropic como risco por trás da soberania digital

Em entrevista à Folha, a ministra da Gestão diz que os EUA bloquearam usuários não americanos dos modelos mais avançados da Anthropic e defende soberania digital sem isolamento: mais de 60% dos dados do governo brasileiro ainda estão em nuvens americanas.

Esther Dweck, ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos
Esther Dweck, ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, defende plano de soberania digital do governo brasileiro. Foto: Michel Jesus/Câmara dos Deputados / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

A ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, disse à série A Máquina, do podcast Café da Manhã da Folha de S.Paulo, publicada neste sábado (29), que o governo dos Estados Unidos bloqueou o acesso de usuários fora do país aos modelos mais avançados da Anthropic, por decisão do presidente Donald Trump. Segundo Dweck, de 49 anos, o episódio mostra o risco de depender de provedores estrangeiros de tecnologia num momento de disputa entre potências pela liderança em inteligência artificial.

Economista e professora da UFRJ, Dweck ocupou a chefia da assessoria econômica e a Secretaria de Orçamento Federal no Ministério do Planejamento entre 2011 e 2016, além de ter passado pela Casa Civil como subchefe de análise e acompanhamento de políticas governamentais.

Na entrevista, a ministra citou outro caso para justificar a preocupação do governo brasileiro: a Microsoft bloqueou o acesso ao e-mail do procurador-chefe do Tribunal Penal Internacional, Karim Khan, depois que os Estados Unidos impuseram sanções a autoridades da corte. Para Dweck, o episódio confirma por que o Brasil não pode depender só de empresas americanas para operar sistemas do Estado.

O Brasil integra a Waico, aliança de inteligência artificial liderada pela China, e não participa da Pax Silica, iniciativa rival liderada pelos Estados Unidos. Dweck disse que a entrada na aliança chinesa não representa alinhamento político a Pequim, e sim afinidade com princípios como acesso mais amplo à tecnologia, cooperação entre países e defesa de instâncias multilaterais de governança digital.

As quatro frentes da soberania digital

Segundo Dweck, a estratégia do governo se divide em quatro frentes:

  • Soberania de dados: saber onde as informações do Estado estão armazenadas e garantir acesso a elas
  • Soberania operacional: manter sistemas públicos funcionando mesmo sob sanções ou bloqueios externos
  • Desenvolvimento tecnológico: criar capacidade nacional para produzir nuvem e inteligência artificial
  • Governança e regulação: submeter plataformas digitais à jurisdição brasileira

A ministra disse que a política não pretende isolar o Brasil nem torná-lo autossuficiente em tecnologia. O objetivo, segundo ela, é garantir controle sobre dados e sistemas do Estado mesmo diante de um corte de acesso imposto por outro governo, como ocorreu nos casos da Anthropic e da Microsoft.

O investimento de R$ 2 bilhões e o prazo de dois anos

Dweck afirmou que a Serpro e a Dataprev, estatais de tecnologia ligadas ao governo federal, já investiram R$ 2 bilhões em infraestrutura física de nuvem para repatriar dados considerados estratégicos. Segundo ela, mais de 60% dos dados do governo brasileiro ainda ficam armazenados em nuvens de empresas americanas, como Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud. A ministra estimou em cerca de dois anos o prazo para que empresas brasileiras consigam oferecer serviços de nuvem em escala próxima à das gigantes americanas.

Quem banca a conta da nuvem soberana

Os R$ 2 bilhões de Serpro e Dataprev saem do caixa das próprias estatais e cobrem apenas a infraestrutura física que sustenta a nuvem do governo. Enquanto isso, a maior parte dos dados públicos segue hospedada fora do país, e o prazo de dois anos citado por Dweck recai sobre um mercado brasileiro de nuvem pequeno diante de Amazon, Microsoft e Google. Os bloqueios à Anthropic e ao e-mail de Karim Khan, citados pela ministra, tratam o atraso como risco direto à operação do Estado, e não só como uma questão de custo.

MB

Repórter de Política e Economia do Real Nacional. Cobre Brasília, Congresso, tribunais, contas públicas e as eleições de 2026. Mais textos · Expediente · Política editorial

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