O LinkedIn passou a exibir, desde julho, um botão para que os próprios usuários denunciem publicações com a etiqueta 'Parece lixo de IA'. A ferramenta faz parte de uma onda de medidas tomadas por grandes redes sociais nas últimas semanas para marcar, reduzir a distribuição ou até tirar do ar conteúdo produzido por inteligência artificial, segundo reportagem do g1.
O movimento aconteceu no mesmo período em que entrou em vigor, em 2 de agosto, o artigo 50 da lei de inteligência artificial da União Europeia, que passou a exigir que plataformas informem quando um texto, uma imagem ou um vídeo foi gerado ou alterado por IA. Para o professor Edney Souza, da Educação Continuada da ESPM, especialista em tecnologia e inovação, o calendário de anúncios das empresas acompanhou de perto os prazos da regra europeia.
O prazo que moveu Meta, Google e LinkedIn
A Meta criou, em maio, rótulos para identificar publicações geradas por inteligência artificial no Facebook e no Instagram e afirma estar testando classificadores que reduzem a exposição desse tipo de conteúdo nas recomendações e fora da rede de contatos do usuário. O LinkedIn seguiu o mesmo caminho em julho: além do botão de denúncia, a rede afirma treinar classificadores próprios para reconhecer publicações automatizadas. Hari Srinivasan, diretor de produto do LinkedIn, disse que a empresa está aprimorando e ampliando o conjunto de classificadores usados para essa finalidade.
Outras plataformas adotaram táticas diferentes. A Snapchat deixou, no fim de julho, de recomendar no Spotlight publicações totalmente geradas por inteligência artificial, com o argumento interno de que esse tipo de conteúdo costuma ser repetitivo e de baixa qualidade. O YouTube retirou a monetização de vídeos genéricos feitos em série por IA. TikTok e Instagram passaram a permitir que o próprio usuário identifique quando uma publicação foi criada com a tecnologia. O Google lançou a tecnologia SynthID para marcar imagens e vídeos sintéticos, em parceria com OpenAI, Kakao e ElevenLabs, e retirou do Google Earth um recurso que gerava imagens falsas de lugares depois de identificar casos de desinformação. A Substack fechou parceria com o software Pangram para estimar, em percentual, quanto de um texto foi escrito por inteligência artificial. A Anthropic, dona do Claude, também anunciou que vai identificar textos e imagens criados por sua tecnologia para se adequar à lei europeia.
Por que as plataformas querem limpar o feed
A pesquisadora Elizabeth Saad, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, afirma que a facilidade de uso das ferramentas de inteligência artificial generativa multiplicou a quantidade de publicações automáticas nos feeds, a ponto de comprometer a experiência dos usuários. Segundo ela, as ferramentas foram criadas para serem simples de operar, o que baixou a barreira para qualquer pessoa produzir grandes volumes de conteúdo em pouco tempo.
Para Souza, da ESPM, a limpeza do feed também protege o negócio das próprias plataformas: se o usuário passa a associar a rede a publicações repetitivas e sem qualidade, o tempo de uso e a receita de publicidade caem. A pressão regulatória europeia funciona, nesse caso, como incentivo adicional para antecipar uma mudança que já interessava às empresas por razões comerciais.
Quem perde alcance quando o post vira 'lixo de IA'
As novas regras de rotulagem valem oficialmente para o público europeu, mas os classificadores e os cortes de monetização rodam nos mesmos sistemas usados no restante do mundo, incluindo o Brasil. Um perfil brasileiro que publica vídeos genéricos gerados por IA no YouTube ou no Facebook pode perder monetização e alcance mesmo sem estar sujeito à lei europeia, porque a plataforma aplica o mesmo filtro em escala global.
O Brasil ainda não tem uma lei em vigor que obrigue a rotulagem de conteúdo sintético nas redes sociais. O Projeto de Lei 2338, que trata da regulação da inteligência artificial, segue em tramitação no Congresso. Até que uma regra brasileira exista, o critério de quem é ou não considerado 'lixo de IA' na rede social continua sendo definido pelas próprias empresas.



